4. Negócio da China
No seguimento ao e-mail que anda a circular, acerca de uma rede de tráfico de órgãos a operar secretamente nos bastidores das famosas lojas de chineses que entupiram os nossos becos, ruas e avenidas, decidi, à boa maneira de John Locke, recorrer ao empirismo para confirmação.
Vesti o meu melhor fato…de treino, enfiei a t-shirt dos répteis, calcei as sapatilhas de símbolo sorridente e dirigi-me à primeira loja de chineses que encontrei. Estava adornado de vestuário original pelo que, ao entrar, ouvi um apito triplo. Letras estranhas coloriram, num ciclo ininterrupto, um painel electrónico de pontos vermelhos. Não percebo chinês, mas deduzi que tivessem algum aparelhómetro capaz de identificar marcas concorrentes de forma a reconhecer potenciais clientes a serem seduzidos para as distintivas-clone e preços dos produtos chineses. Rapidamente, vários espécimes de olhos hipnóticos caminharam na minha direcção. Engracei com o andar desengonçado e mecânico daquelas marionetas humanas. Foi então que reparei que em cada esquina dos esguios corredores, vários vultos espreitavam enquanto se posicionavam em posição de espionagem, sempre atentos ao mais pequeno movimento que eu esboçava. Não vim aqui para roubar ninguém! Quem muito desconfia… – pensei chateado.
- Que vai quêlê? – Apressou-se a dizer o cabecilha (espécime mais alto). Fez-se acompanhar de duas chinesas de metro e meio e um caixa de óculos também ele rasteirinho. A isto chamo foco no cliente – quatro pessoas à minha disposição…qual CRM qual carapuça.
- Boa tarde – repliquei. Ouvi dizer que vocês fazem cirurgias ilegais aí numas salas secretas. Tenho actualmente 2 rins perfeitamente saudáveis e gostaria de saber quanto poderá render um deles.
Silêncio e pasmo.
- Hrrr…. $&”#$%/$# - Vociferou para o rasteirinho que inclinou a cabeça em jeito de quem quer levar um cachaço valente.
- Não precisam de se chatear – sosseguei. Gostaria somente de saber quanto poderia valer. Ao que sei, muitas pessoas têm uma vida normal só com um rim, portanto, poderei estar interessado em vender o outro.
As amêndoas oculares do chefe voltavam a ficar espantosamente esbugalhadas. Achei graça e imaginei uma daquelas lágrimas do tartaruga genial a pairar ao lado da sua cabeça.
Nada era dito e o rasteirinho estava já no final de um corredor a bradar para um dos vultos espiões enquanto agitava incessantente os braços para cima e para baixo, quase dando a impressão que ia levantar voo. Uma das chinocas afastou-se e grunhia um dialecto cómico para o telemóvel, mas isto com uma rapidez silábica que não imaginava possível. O chefe mantinha-se estúpido e mudo à minha frente emanando, só esporadicamente, onomatopeias próprias de um elefante em pleno cemitério africano – humm, haaann, jeeehhhh, uahheem – e coçava insistentemente o nariz e os cabelos espigados da parte traseira da cabeça.
- Quelia complal pilhas? Pilhas de ládio??
Pilhas de rádio?!! Que raio de pergunta era aquela?
- Não, não! Venda ilícita, mas espontânea, de órgãos humanos – clarifiquei.
- Calegadoles de telemóvel?
- Lins, Lins!! – Gritei, e tinha já subido a t-shirt para apontar de forma mais clara no físico – mas atenção, saudáveis, de “plimeila categolia” – alertei. Não se tratava de vender gato por lebre, até tinha feito um check-up há duas semanas.
Os olhos do chefe começaram a voltar à normalidade.
- O senhol é polícia?
Que gente estúpida. Mesmo que fosse polícia, seria suficientemente idiota para dizer que sim?
- Sou estudante.
E dito isto, ouvi um barulho. Olhei para trás. A outra chinesita tinha fechado a porta.
- 1700 – disse o chefe.
- desculpe??
- 1700 eulos. É quanto lhe ofelecemos pelo seu lim.
Não segurei a gargalhada.
- Vocês são mas é uns somíticos, é o que vocês são. Vá, avancem com uma proposta decente senão levam um correctivo.
- colectivo? Se folem tlês pagamos a 1900 cada.
- Não é colectivo, é correctivo, castigo….oh, esqueça.
O rasteirinho sorria e acenava com a cabeça; por muito insultos que lhe endereçasse certamente que continuaria com aquela cara de asno a dizer que sim senhor. Estava a ficar enervado, uma pessoa a pensar que estava a lidar com gente séria e afinal queriam-me aplicar o golpe do baú.
- Ouça – dirigi-me ao chefe enquanto lhe segurei o braço e me aproximei da sua orelha. Por um rim da categoria do meu, não espero menos de 4000 euros. Proponho um ponto intermédio – ainda não fui operado ao apêndice, visto que têm que abrir e têm, faziam-me já a operação e eu fazia um desconto – 3500€ e 2 carregadores de isqueiro.
- Implaticável!! – Respondeu o cabecilha de nariz altivo e braços cruzados.
Tu queres ver que o raio do chinês não vai ceder…
- Ouça – insisti – não está a ver que se trata de um excelente negócio. Pode estar a perder um cliente por uma tuta e meia. Meia dúzia de trocos!!! Um rim destes vende-o bem por 6 ou 7000 mil. Olhe, 3000€ e não se fala mais nisso.
- Sem os calegadores?
- Já está a abusar.
- Ofelecemos 8 pilhas de ládio em tloca…
Os preparativos foram iniciados e pedi, por razões de superstição, que me aliviassem o lado esquerdo.
Duas horas depois estava a sair, pelo meu próprio pé da loja, embora o rasteirinho se tivesse oferecido para me levar às cavalitas.
- Volte semple! - Gritou o cabecilha, e todos acenavam sorridentes.
- Até à próxima. Quando estiver melhor passo por cá para falarmos do baço – prometi.
Já a caminho de casa esforcei-me para não soltar uma gargalhada. As dores eram poucas mas evidentes na presença de espasmos de qualquer tipo.
Tinha acabado de matar dois coelhos com uma cajadada só, era impossível não estar com a adrenalina no zénite. Ainda por cima, coelhos chineses…por fama, os reis das negociatas.
No último check-up que realizei foi diagnosticado um problema grave no rim esquerdo. Teria que ir à faca de urgência. Fatal como o destino.
Ora, após as notícias tão críspidas que ouvi circular acerca de uma malfadadas operações feitas nas salas interinas e recônditas das lojas dos chineses resolvi arriscar.
Perdido por cem, perdido por mil. Toca a confirmar, à boa maneira de John Locke…
Entretanto, e curiosamente, doía-me mais o lado direito que o esquerdo. Comecei a pensar noutras coisas para distrair a dor. Lembrei-me da campainha que apitou três vezes quando entrei. E do risinho do rasteirinho. E do painel colorido. O que diriam aquelas letras, afinal? Doeu mais um pouco, do lado direito, e eis que tive um momento de revelação. Será possível que me tenham passado a perna?
E se o painel tivesse de alguma forma revelado a minha patologia? E se me tivessem tirado o rim saudável? Não evitei o sorriso.
Será?
Olhem que realmente, uma pessoa a pensar que estava a lidar com gente séria e fazem-me uma coisa destas…
Agora percebi o significado dos negócios da china… fui chinado!
Ass. Esaspson
Abraços saudáveis
