Para derrubar as paredes que têm ouvidos e os ouvidos que têm paredes

quarta-feira, setembro 27, 2006

4. Negócio da China

No seguimento ao e-mail que anda a circular, acerca de uma rede de tráfico de órgãos a operar secretamente nos bastidores das famosas lojas de chineses que entupiram os nossos becos, ruas e avenidas, decidi, à boa maneira de John Locke, recorrer ao empirismo para confirmação.
Vesti o meu melhor fato…de treino, enfiei a t-shirt dos répteis, calcei as sapatilhas de símbolo sorridente e dirigi-me à primeira loja de chineses que encontrei. Estava adornado de vestuário original pelo que, ao entrar, ouvi um apito triplo. Letras estranhas coloriram, num ciclo ininterrupto, um painel electrónico de pontos vermelhos. Não percebo chinês, mas deduzi que tivessem algum aparelhómetro capaz de identificar marcas concorrentes de forma a reconhecer potenciais clientes a serem seduzidos para as distintivas-clone e preços dos produtos chineses. Rapidamente, vários espécimes de olhos hipnóticos caminharam na minha direcção. Engracei com o andar desengonçado e mecânico daquelas marionetas humanas. Foi então que reparei que em cada esquina dos esguios corredores, vários vultos espreitavam enquanto se posicionavam em posição de espionagem, sempre atentos ao mais pequeno movimento que eu esboçava. Não vim aqui para roubar ninguém! Quem muito desconfia… – pensei chateado.
- Que vai quêlê? – Apressou-se a dizer o cabecilha (espécime mais alto). Fez-se acompanhar de duas chinesas de metro e meio e um caixa de óculos também ele rasteirinho. A isto chamo foco no cliente – quatro pessoas à minha disposição…qual CRM qual carapuça.
- Boa tarde – repliquei. Ouvi dizer que vocês fazem cirurgias ilegais aí numas salas secretas. Tenho actualmente 2 rins perfeitamente saudáveis e gostaria de saber quanto poderá render um deles.
Silêncio e pasmo.
- Hrrr…. $&”#$%/$# - Vociferou para o rasteirinho que inclinou a cabeça em jeito de quem quer levar um cachaço valente.
- Não precisam de se chatear – sosseguei. Gostaria somente de saber quanto poderia valer. Ao que sei, muitas pessoas têm uma vida normal só com um rim, portanto, poderei estar interessado em vender o outro.
As amêndoas oculares do chefe voltavam a ficar espantosamente esbugalhadas. Achei graça e imaginei uma daquelas lágrimas do tartaruga genial a pairar ao lado da sua cabeça.
Nada era dito e o rasteirinho estava já no final de um corredor a bradar para um dos vultos espiões enquanto agitava incessantente os braços para cima e para baixo, quase dando a impressão que ia levantar voo. Uma das chinocas afastou-se e grunhia um dialecto cómico para o telemóvel, mas isto com uma rapidez silábica que não imaginava possível. O chefe mantinha-se estúpido e mudo à minha frente emanando, só esporadicamente, onomatopeias próprias de um elefante em pleno cemitério africano – humm, haaann, jeeehhhh, uahheem – e coçava insistentemente o nariz e os cabelos espigados da parte traseira da cabeça.
- Quelia complal pilhas? Pilhas de ládio??
Pilhas de rádio?!! Que raio de pergunta era aquela?
- Não, não! Venda ilícita, mas espontânea, de órgãos humanos – clarifiquei.
- Calegadoles de telemóvel?
- Lins, Lins!! – Gritei, e tinha já subido a t-shirt para apontar de forma mais clara no físico – mas atenção, saudáveis, de “plimeila categolia” – alertei. Não se tratava de vender gato por lebre, até tinha feito um check-up há duas semanas.
Os olhos do chefe começaram a voltar à normalidade.
- O senhol é polícia?
Que gente estúpida. Mesmo que fosse polícia, seria suficientemente idiota para dizer que sim?
- Sou estudante.
E dito isto, ouvi um barulho. Olhei para trás. A outra chinesita tinha fechado a porta.
- 1700 – disse o chefe.
- desculpe??
- 1700 eulos. É quanto lhe ofelecemos pelo seu lim.
Não segurei a gargalhada.
- Vocês são mas é uns somíticos, é o que vocês são. Vá, avancem com uma proposta decente senão levam um correctivo.
- colectivo? Se folem tlês pagamos a 1900 cada.
- Não é colectivo, é correctivo, castigo….oh, esqueça.
O rasteirinho sorria e acenava com a cabeça; por muito insultos que lhe endereçasse certamente que continuaria com aquela cara de asno a dizer que sim senhor. Estava a ficar enervado, uma pessoa a pensar que estava a lidar com gente séria e afinal queriam-me aplicar o golpe do baú.
- Ouça – dirigi-me ao chefe enquanto lhe segurei o braço e me aproximei da sua orelha. Por um rim da categoria do meu, não espero menos de 4000 euros. Proponho um ponto intermédio – ainda não fui operado ao apêndice, visto que têm que abrir e têm, faziam-me já a operação e eu fazia um desconto – 3500€ e 2 carregadores de isqueiro.
- Implaticável!! – Respondeu o cabecilha de nariz altivo e braços cruzados.
Tu queres ver que o raio do chinês não vai ceder…
- Ouça – insisti – não está a ver que se trata de um excelente negócio. Pode estar a perder um cliente por uma tuta e meia. Meia dúzia de trocos!!! Um rim destes vende-o bem por 6 ou 7000 mil. Olhe, 3000€ e não se fala mais nisso.
- Sem os calegadores?
- Já está a abusar.
- Ofelecemos 8 pilhas de ládio em tloca…
Os preparativos foram iniciados e pedi, por razões de superstição, que me aliviassem o lado esquerdo.
Duas horas depois estava a sair, pelo meu próprio pé da loja, embora o rasteirinho se tivesse oferecido para me levar às cavalitas.
- Volte semple! - Gritou o cabecilha, e todos acenavam sorridentes.
- Até à próxima. Quando estiver melhor passo por cá para falarmos do baço – prometi.
Já a caminho de casa esforcei-me para não soltar uma gargalhada. As dores eram poucas mas evidentes na presença de espasmos de qualquer tipo.
Tinha acabado de matar dois coelhos com uma cajadada só, era impossível não estar com a adrenalina no zénite. Ainda por cima, coelhos chineses…por fama, os reis das negociatas.
No último check-up que realizei foi diagnosticado um problema grave no rim esquerdo. Teria que ir à faca de urgência. Fatal como o destino.
Ora, após as notícias tão críspidas que ouvi circular acerca de uma malfadadas operações feitas nas salas interinas e recônditas das lojas dos chineses resolvi arriscar.
Perdido por cem, perdido por mil. Toca a confirmar, à boa maneira de John Locke…
Entretanto, e curiosamente, doía-me mais o lado direito que o esquerdo. Comecei a pensar noutras coisas para distrair a dor. Lembrei-me da campainha que apitou três vezes quando entrei. E do risinho do rasteirinho. E do painel colorido. O que diriam aquelas letras, afinal? Doeu mais um pouco, do lado direito, e eis que tive um momento de revelação. Será possível que me tenham passado a perna?
E se o painel tivesse de alguma forma revelado a minha patologia? E se me tivessem tirado o rim saudável? Não evitei o sorriso.
Será?
Olhem que realmente, uma pessoa a pensar que estava a lidar com gente séria e fazem-me uma coisa destas…
Agora percebi o significado dos negócios da china… fui chinado!

Ass. Esaspson

Abraços saudáveis

quarta-feira, janeiro 04, 2006

3. Terramotos Metafóricos

Séc. XVIII. Novembro de 1755. 9h20 da manhã
O Sol ergue-se do ninho estelar, o ar está árido e o vento vai lambendo gelidamente os pardais que compôem uma qualquer sinfonia sincopada que parece emanar um bom dia citadino reconfortante.
Era dia de guarda ( feriado religioso). Ironicamente, dia de todos os Santos.
De repente, o tumulto.
Num ápice, a desgraça.
Bruscamente o ruído, o choro e o sepulcro
Por fim a metáfora.
Era dia 1 de Novembro de 1755 e data desse dia fatídico a expressão popular "parece que caiu o Carmo e a Trindade".
O povo tem esta capacidade de mumificar acontecimentos que lhe foram particularmente marcantes numa expressão reminiscente que perdura ao longo do tempo. A metáfora surge como um alerta em alguns casos, mas também serve de muleta histórica que permite às gerações vindouras recordar um determinado facto, ainda que noutras circunstâncias.
"Parece que caiu o Carmo e a Trindade" - recordo-me bem de ouvir essa expressão quando era miudo. Sempre que se ouvia um barulho ensurdecedor, lá estava a metáfora à espreita, ansiosa por dar 1 ar da sua graça.
Nunca tinha realmente pensado porque se dizia tal coisa, mas curiosamente, tinha uma força sonante incrível.
Soava bem, soava a coisa inteligente.
Já se fosse o inverso - " parece que caiu a trindade e o Carmo" - não teria essa pujança sonora.
Sempre que a ouvia pensava na estação da Trindade e na Igreja do Carmo no Porto. Sempre associei o ditado à Invicta, mas como não sabia de qualquer desastre que envolvesse o Carmo e a Trindade nortenhas, achava que a expressão teria uma matriz hipotética - "Parece que caiu o Carmo e a Trindade, se o Carmo e a Trindade tivessem algum dia caído".
Andava enganadínho.
O Carmo e a Trindade tinham realmente caído,mas não foi nem a estaçao nem a Igreja.
Durante o terramoto de 1755 em Lisboa, o choque das placa tectónicas provocou o desabamento do Mosteiro daTrindade e do Convento do Carmo em simultâneo, com um ruído dantesco. Eram dois mosteiros enormes que ficavam na zona alta da cidade, perto do que era o Chiado e quando desabaram, as pessoas pensaram que de seguida surgiriam, do céu negro de pó, os cavaleiro do apocalipse, para as conduzir ao Fim. Muitos recordaram a violenta queda de Sodoma e Gomorra - as Sin Citys do tempo do patriarca Abraão - que foram vaporizadas pela sua conduta pecaminosa. O terramoto foi inclusive visto como um castigo divino para alertar todas as nações que alguém as estava a vigiar e condenava o que via.
Não se vislumbraram cavalos alados, e o Fim só o foi para os muitos que infelizmente pereceram em tão nefasto desastre.
Mas foi marcante... e o que marca torna-se marca.
Agora, quando ouço a expressão, penso que a metáfora afinal não é mais que um tributo à memória de todos aqueles que não tiveram oportunidade de a proferir.

Abraços tectónicos

p.s. próxima expressão a analisar : "longe como o cú de judas"

terça-feira, dezembro 27, 2005

2. A Religião Matrix

Eram 2 da manhã e dou por mim a pensar na batalha final do Matrix 3.
Zion, qual aldeia gaulesa, insistia em resistir aos ferozes ataques, não dos romanos, mas das vis máquinas que nos aprisionam como pulgas num copo, naquela que será a visão mais enérgica da utilidade humana num futuro virtual - pura electricidade.
Comecei por pensar que aquele episódio se assemelhava um pouco ao tempo das Cruzadas.
A luta contra os Infiéis, a defesa da Terra Santa, em suma, a eterna disputa entre o bem e o mal.
Qual não é o meu espanto quando reparo que o nome da Terra Santa Matrixiana e Cristã é exactamente o mesmo -Zion!
Sião - ouviram falar deste nome certamente no badalado código da Vinci do Dan Brown - é um outro nome usado na bíblia para Jerusalém - a terra Santa Cristã.
Hum - resmunguei - devo ser o único Homem na Terra que ainda não tinha reparado nisto...
Foi então que comecei a montar algumas peças e a perceber outras semelhanças...

Vejamos:

No Matrix, todos aguardam a chegada do Salvador, o Messias, o tal, ou como não nos cansamos de ouvir- "The chosen one".
Este Messias, surge no conto Wachowskiano como o Salvador de uma minoria rebelde que procura algo em que acreditar para encarar o futuro com alguma esperança. O império das máquinas subjuga toda a raça Humana e somente alguns conseguiram desprender-se da sua situação de pilha energética formando um grupo de rebeldes ansiosos por uma
revolta e mais ainda por um líder "divino" que consiga derrotar o maléfico império.
Até aparecer essa divindade, este contingente rebelde é liderado por Morpheus, uma espécie de São João Baptista que baptiza os seus discípulos quando estes se desprendem do marasmo da vida virtual e renascem para a agonia da vida real.
Juntos, formarão o grupo de apóstolos que seguirão o Messias nas suas aventuras.
Um desses apóstolos vem mais tarde revelar-se um traidor, preparando uma armadilha ao grupo e seu líder.A mesma não irá, contudo, desvia-los dos seus propósitos.
Numa das suas aventuras, Neo morre, mas só para ressuscitar um pouco mais tarde (pena que não ao 3º dia).
A pessoa mais íntima do "escolhido" é uma mulher - Trinity, que desenvolve mais do que uma amizade com Neo.
Finalmente, temos o auto-sacrifício do Messias, em prol da salvação da Humanidade, que culmina com a sua morte.

Vai daí.......deduzi que os irmãos Wachowski são certamente Cristãos e afinal não tão visionários assim.
Se queres fazer um filme de sucesso, estuda a religião, urso.

Temos 1 messias - Neo / Jesus;
uma terra prometida - Zion / Sião - Jerusalem na bíblia
um iniciador - Morpeus / S. João Baptista
a Ressureição do Messias
um grupo de seguidores - rebeldes / Apóstolos
um traidor - careca(não me lembro do nome-ajudem nos comments) / Judas
uma mulher muito amiga do Messias - Trinity / Maria Madalena
um sacrifício - Confronto / Crucificação
a morte fruto desse sacrifício

Abraços neófitos
p.s.Para finalizar só realçar a ironia dos nomes, quer do herói Matrixiano - "Neo" - "novo", o que sugere claramente um renascimento do conceito de Messias e Salvador dos oprimidos da sociedade moderna; quer da sua amada -trinity - que mais uma vez nos remete para a matriz religiosa - santíssima trindade; quer do seu mentor - Morpheus - Deus do sono e dos Sonhos, que ironicamente simboliza o estado dormente, letárgico da sociedade envolvente que simplesmente existe, mas não é (verbo ser) enquanto sociedade humana e livre.
Combinados obteriamos algo como isto:
Por ter andado a dormir sob o encantamento de Morpheo, não percebi que o verdadeiro Matrix se refere a uma neo-trinity, ou seja, a uma nova trindade. Um conto antigo relatado num presente frágil que nos adverte para a necessidade de encontramos novos Messias que nos projectem para um futuro melhor.Seja ele numa terra Santa ou não!

segunda-feira, dezembro 05, 2005

1. Catarse inicial

O que passa, torna-se passado.
O que fica, fica encaminhado
para o futuro que lá vem.

Este,sempre bem embrulhado,
não passa sem passar
no presente de alguém.

Saberemos desfrutar
deste doce passear
sem sabermos bem com quem?

Aguardar pelo amanhã
aceitar o que ele dá
preparar para o que vem.

Pode vir entremeado
dificilmente moldado,
pode ser esperança vâ.

Mas também adocicado
pelo acto, em pecado,
de trincar uma maçã

Pode vir sem pré-aviso
pode roer o juízo
dos que contam não contar

Mesmo assim é paraíso
quando se mantém o sizo
de encontrar o começar.

abraços virgens

p.s.
O começo é a catarse do Homem

terça-feira, outubro 11, 2005

Interregno do Interregno

Só para avisar que venci com maioria absoluta as eleições para a presidência da câmara deste blog, sendo por isso justo que avise os meus caros amigos que vou recomeçar a escrita deste 2º mandato logo que tal me seja possível.

p.s. Concorri como independente...

domingo, abril 24, 2005

XXXV.Ouvir o Silêncio

Já cá falei sobre o fabuloso efeito de ouvir o silêncio, de sentir a inexistência, etc (ver: Esplanada da Consciência ).
Pois eis que senti que chegara a hora de devanear poeticamente sobre o Mundo do vácuo.
A maior homenagem que lhe poderia prestar era precisamente o de nada dizer, pensei...
Mas, mesmo nada dizendo, não poderia evitar o pensamento de fluir...
E a voz interior? E a cisma? As idéias tácitas, as gargalhadas interinas, o outro Eu?
Senti-me enganado!
Silêncio? Existirá?
Não sei se somos capazes de sentir realmente o nada. Mas, e se o sentirmos, será que damos conta disso?
Poderemos nós reconhecer o Silêncio?
Para o fazer temos que reflectir e logo pensar... pois bem, ao fazê-lo estamos inconscientemente a moldar o "Nada" num "Algo"; o zero num x; a ausência em presença.
Penso, logo nasce o ruído.
Bem, agora perceberão melhor o motivo pelo qual só consegui traduzir o meu devaneio mental poético sobre o Silêncio em 4 curtos versos:

Numa homenagem ao silêncio
percebi que o mais difícil
não é falar no momento exacto
mas sim calar no exacto momento.

p.s.

sexta-feira, abril 08, 2005

XXXIV.O Fim do Princípio

Sonhei q tinha uma alma.
Acordei, olhei, espreitei,
mas não a encontrei.
Ergui-me e vesti-me.
Procurei, vasculhei, cuscuvilhei,
investiguei sem lei aparente.
Estava a ficar demente!
Onde poderá ela estar?
Onde a poderei encontrar?
Fechei os olhos e aguardei.
Esperei que o sonho se manifestasse,
que a consciência se evaporasse
como gotas de água num deserto incerto.
Entrei...
O portão estava já aberto.
Senti o calor de perto.
Aqueci o iceberg inconsciente
e deparei-me comigo frente a frente.
Logo atrás de mim baloiçava suavemente
uma espécie de espectro,
nada de muito concreto
algo difuso, confuso.
Mas belo!
Tão belo como o belo cabelo
de uma modelo da perfeição.
Caí de joelhos no chão
enquanto extasiava com tamanha beleza.
Não suportava aquela pureza
e assumi a minha fraqueza
perante a Alma de mim.
Estava sentada, prostrada,
cansada de se esconder.
olhei-a nos olhos e disse-lhe:
- "Porque te escondes assim ? "
murmurou:
- " Porque o meu início é o teu fim "

ass. Esaspson

p.s. Minúsculo tributo a uma alma que se cansou de esconder.
A vida é a infância da imortalidade. Karol Wojtyla é portanto, ainda, um garoto...

quarta-feira, março 09, 2005

XXXIII.Moderem a Modéstia

Quem me conhece, sabe que nutro por José Mourinho uma admiração ímpar, somente suplantada pela admiração que dedico aos resultados por ele alcançados.
Desde que venceu a taça Uefa no F.C. Porto que o vejo como o melhor Gestor de Recursos Humanos do Mundo - sem rival, pelo menos no meu entendimento.

Queria por isso, e publicamente, deixar aqui uma palavra de apreço e de agradecimento a este carismático Gestor, pelo orgulho que senti, enquanto Português, Portuense e futuro GRH, pela dramática e emocionante vitória hoje alcançada.
A corrida para a excelência pode não ter meta, mas este rapaz não descansa enquanto não a encontrar...

Abraços vencedores

p.s. Ser modesto está fora de moda, gosto de pessoas moderadas mas modernas!

sábado, março 05, 2005

XXXII.Ouvir ou vir Ouvir + tarde

Humidade no ar; aquecedor ligado no máximo; cobertor fofo ao longo do corpo; nariz pingente com um rubor luzidio.
O frio entranhava-se nas articulações dos ossos das mãos de forma inexorável. Geladas, procuravam o calor do meio das pernas, um pouco mais abaixo da zona pélvica, conservando sempre uma boa dose de sensatez púdica.
Crimófilo é aquele que se dá bem em regiões frias, o oposto semântico dessa palavra representa-se com o meu nome...
Enquanto os membros superiores pugnavam contra o entorpecimento, eis que se abre uma porta na sala.
Num segundo, partículas de um ar gélido avançaram de forma devassadora pelo espaço, pregando-me uma bofetada fenomenal. Estrebuchei 2 vezes antes de conseguir desencadear um raciocínio. Quando olhei para o dito acesso já o pequenote estava a abrir a garganta da outra extremidade. A língua descrevia já o movimento de semi-círculo quando nova pancada atingiu a minha face descoberta. Após o repentino e recorrente espancamento reabri os olhos e já não vi mais nenhum ser humano na sala. Pensei: Com atitudes destas, nem poderia ver mais nenhum - isto foi obra de um animal!
Chamei o criminoso ao local do delito, pedi para se sentar confortavelmente e enquanto o vulcão emocional interno entrou numa erupção medonha, disse-lhe suavemente:

"Quantas vezes preciso de te dizer "quantas vezes preciso de te dizer" para ouvires o que te digo à primeira, ou vires de encontro ao que tinha dito na última vez que te disse?
Portas que se abrem; fecham-se! "

Não falou durante vários minutos...até hoje nunca mais falamos no assunto.
Porta fechada, aliás, assunto arrumado.

abraços ou a braços com as palavras

p.s. episódio que remonta ao período gripal que me condenou a trabalhos forçados de cama há umas semanas atrás.

quinta-feira, março 03, 2005

XXXI.O Sistema do Sistema

Boa Noite.
O International Board (IB), órgão legislativo do futebol, aprovou finalmente a utilização de bolas munidas com um microchip posicional.
Estas bolas cibernéticas vão permitir abolir os lances de “golos fantasmas” do futebol moderno, avisando o árbitro do encontro directamente através de um sinal – pensa-se que 1 pequeno choque eléctrico nas zonas baixas – sempre que a bola ultrapassar a linha de golo.
A tecnologia será testada no Campeonato do Mundo de sub-17, que se disputa em Setembro, no Peru, e ao que apuramos, os Senhores do Sistema do panorama nacional – recusamo-nos a apontar o dedo para evitar represálias nos elementos da redacção – estão já em negociações subornáveis com as empresas que fabricam o dito microchip.
Se bem sucedidas, estas negociações vão originar o fabrico de um telecomando exclusivo, que permitirá controlar o aviso eléctrico.
De acordo com as informações confidenciais de 2 dos nossos melhores espiões desportivos – B & T- pondera-se ainda a hipótese de adicionar, dissimuladamente, 1 segundo microchip nas bolas, que vai permitir, através do telecomando, controlar a direcção que a bola vai tomar sempre que estiver no ar.
Em comunicado à imprensa, Thomas van Schaik, porta-voz da Adidas referiu que esta hipótese está ainda em testes: «Nós estamos convencidos da qualidade do sistema mas devemos provar a sua eficácia a 100 por cento. Não podemos precipitar as coisas».
Não percebemos, contudo, se falava do microchip legal ou do que permite o controle navegacional da bola…

Boa Noite.
No seguimento da notícia anterior, vimos informar os nossos leitores que alguns dos grupos empresariais mais importantes do país se reuniram de emergência para deliberarem sobre a eventual construção de uma fábrica de roupa interior de Homem em Portugal.
Esta roupa interior será fabricada em materiais sólidos e amenizadores de choques eléctricos.
Pinto da Costa, Dias da Cunha e Luís Filipe Meneses lutam neste preciso momento por uma quota na respectiva fábrica.
Em entrevistas exclusivas ao Jornal Ataraxia, todos eles foram unânimes em considerar bem mais suportáveis os custos inerentes à oferta de roupa interior do que as viagens ao Brasil.

Abraços sistémicos

P.S. Elementos da federação Portuguesa de Futebol acabam de sitiar o local da reunião. Gilberto Madail foi apanhado a saltar um muro nas traseiras do edifício e com o susto provocado pelo flash da máquina do nosso fotógrafo, caiu e bateu com o nariz num paralelo. Quando se levantou prometeu vingança erguendo o dedo bem ao alto.
Acabou de chegar um carro da GNR às imediações da nossa redacção.
Tentaremos ainda assim continuar comºçlJFOIEFHºoafhºLAKJF~+0q3

terça-feira, fevereiro 22, 2005

XXX.Free Mojitaba and Arash Day

"A comunidade global de weblogs está a ser "chamada" para apoiar dois bloggers iranianos que se encontram detidos. Esta é a primeira acção levada a cabo pela comunidade da blogosfera, para proteger os direitos de liberdade de expressão. "

Clicar aqui para mais infos : paredescomouvidos

Free Mojitaba and Arash Day

abraços sólidos

p.s."O único tirano que aceito neste mundo é a voz silenciosa dentro de mim, a consciência." (Mahatma Gandhi.)

domingo, fevereiro 13, 2005

XXIX.O Tombo Fatal - Parte2

(...)

“Parou, parou!!”- repetiram gulosamente.
Teria o queixume do portador sido esquecido? Teria a sua alegria exacerbada sido normalizada? Poderia a tristeza ter abrandado, o desespero acabado?
Todos se entreolhavam enquanto continuavam a puxar. E eu não me fiz rogada, tinha aqui a hipótese de me imortalizar nas lendas e mitos vindouros como 1 das poucas que sobreviveu ao tombo fatal.
Todas as que estavam no ponto lacrimal, nosso túnel intermédio entre a vida e a morte, sorriam ao ver que me aguentava mesmo mesmo no limite.
Como os sentimentos do portador pararam, não estavam a ser segregadas novas lágrimas pelas glândulas, era a altura ideal. O nascimento tinha parado e eu sonhava voltar às meras funções de lubrificação, sem riscos de ser exteriorizada…
Senti o puxão final e misturei-me com as minhas irmãs no saco lacrimal– e que saco!!!! Que alegria!! Abraçamo-nos intensamente, fundimos as nossas 3 camadas umas nas outras.
Sim, 3 camadas, somos constituídas por 3 camadas: a camada exterior de gordura, a camada intermédia aquosa e a camada mucosa interna.
Várias outras camaradas desciam pelos canalículos lacrimais para me vir abraçar. Mas que alegria – toda a comunidade presenciou o milagre da salvação.
A alegria não era só pelo meu salvamento, contudo. Nós, as lágrimas, somos de tal forma apegadas umas às outras que quando uma de nós cai, dá o tiro de partida para a queda desenfreada de muitas outras. Nunca cai uma só! Embora pareça por vezes que uma só gota liposa escorre pela face do portador, a verdade é que essa gota condenada forma-se com muitas de nós.
Então, o facto de eu ter aguentado significa que servi de tampão ao ribeirinho lacrimejante, e ao contrário do que dizia António Aleixo, ele não foi correr para outro lado - estancou!
" Foi uma heroína!! " - esclamavam as recém - nascidas; " Salvou-nos a todas "- murmuravam as mais velhas com um sorriso de aprovação.
Tudo parecia bem…

quarta-feira, fevereiro 09, 2005

XXVIII.O Tombo Fatal - Parte1

Estavam todas ali a puxar e conseguia ouvir os gritos desesperados das mais idosas: “Não caias! Aguenta! Não te deixes cair! Puxem, puxem!!!!
E puxavam…puxavam cada vez mais, todas juntas a puxar, sempre a puxar.
Olhavam para mim com nostalgia já; e quanto mais nostálgicas ficavam, mais força imprimiam no “puxanço”.
Lembro-me das histórias que ouvíamos durante a noite, quando a cúpula se fechava. Mitos de bravas guerreiras Hercúleas que se aguentaram estoicamente na corda bamba entre a vida e a morte, desafiando, mais do que uma vez, as leis da gravidade, evitando, in extremis, o tombo fatal.
Mas nem sempre depende de nós. A única coisa que podemos fazer é puxar e aguentar.
Desde que nascemos que nos ensinam a fazê-lo.
Todos os segundos contam e por isso o dividimos em tão grande escala. O nosso tempo é diferente do vosso, não vivemos em anos, vivemos em dias, sobrevivemos em horas, nascemos em minutos, mas o ciclo pode durar somente breves segundos. E por isso mesmo, todos os segundos contam.
No meu 1º segundo de vida aprendi a fiel disciplina da entreajuda como forma de me ajudar a mim mesmo.
“Puxarás o teu próximo como sabes que ele te puxaria a ti”- diziam-nos.
E puxei, puxei sempre que foi necessário. Não queria pensar que um dia me caberia a mim o estatuto de “puxada”. Agora só me resta esperar que me puxem tal como eu puxei religiosamente os meus semelhantes.
E puxam, prosseguem puxando, bravas irmãs.
Não desistirei. Vão já 2 segundos desde que o nascimento desenfreado começou. No fundo, é a vida que nos assassina. A vida das que nascem depressa demais.
Não têm culpa, pobres diabos. Não pediram para nascer. Não depende delas, nem de nós. Somos todas vítimas de 1 crescimento demográfico insaciável e incontornável.
E cabe à primeira de nós a tropeçar, a ingrata tarefa de se aguentar evitando o fluxo, depois imparável, da queda.
Não podemos contudo escolher quem será o maquinista deste comboio infernal. Tivesse eu tido a opção de escolher e não estaria agora assim pendurada. Sinto-me uma vã rolha que luta, inconsequentemente, pelo adiamento do jorrar de um excelente espumante francês.
Enquanto vos confesso estes sentimentos cometo 1 sacrilégio imperdoável - queixo-me!
Os queixumes são o nosso maior inimigo. São eles, que na maior parte das vezes, provocam o bojo fatal.
Nunca ninguém se pode queixar, nem mesmo dos queixumes. Não se devem evocar.
Somos ensinadas a temê-los para que não os invoquemos; mas como não pensar em algo que sentimos? Ninguém nos ensinou a não sentir. Podemos ser honestos em não os pronunciar, mas nunca seremos honestos emocionalmente porque ninguém saberá nunca o que sentimos, muito menos na altura do puxanço.
São nossos inimigos, contudo. Sim… Assassinos!
Até a Alegria. Quando em demasia também funciona como interruptor do jorramento final - verdadeira entropia. Mas essa é permitida entre nós, embora rezemos para o portador não a sentir dessa forma intensa.
"Parou!!" - gritaram efusivamente...
E eis que o “bloom” estagnou…. será que é uma pausa permanente?
Continuo a aguentar firmemente, enquanto vejo toda uma miríade de olhos arregalados a mirarem-se mutuamente, sem que qualquer som, grunhido ou ruído seja emitido.
Não há banda sonora na vida real. Parece que o mundo foi despido de vibrações mecânicas. O ar é o som. E o som dura...não termina...
E como o tempo adora estas eternidades momentâneas. Como saboreia cada milésimo mudo.
O seu sorriso sádico não engana. Adora relativizar.
Por muito que seja cientificamente errado a verdade é que se há horas que levam minutos a passar, também há minutos que levam horas a terminar!
Imaginem isto agora ao nível dos segundos…
O silêncio continua a ouvir-se.
Leves sorrisos começam a esboçar-se, mas, será possível?

domingo, fevereiro 06, 2005

XXVII.Sonhos perceptivos

Engraçada, a percepção...
Há 2 dias atrás sentei-me calmamente no sofá da sala. Estava com sede de zapping. Bebi, saboreei, bebi mais um pouco e acabei por finalizar com um digestivozinho de 1999 que estava a passar na Rtp Memória.
A Ala dos Namorados tinha acabado de soltar o beijo entre o Nuno Guerreiro e a sempre fantástica Sara Tavares, que parecia realmente miar qual gatinha ternurenta.
Não admira que, fruto da sua adoração felina, os egípcios punissem com a morte o "assassinato" de um gato. É que quem mia assim, não é mudo! Sabem de que música falo, certo?
A varanda da gatarrada era o Herman 99 - bons velhos tempos em que ainda não tinha aloirado, nem o cabelo, nem a postura, nem as ideias.
Mordaz, apresentou todos os elementos da banda sempre com aquela ironia jocosa que lhe é reconhecida e sem evitar perguntar as idades dos gatinhos mais novos: "...e tu, quantos aninhos tens tu meu gatinho?" - sorri-perguntava aos pequenotes com menos de 30 primaveras.
Gostou particularmente do felino do clarinete-baixo, enquanto zombava com o potencial de utilização de tão comprido instrumento de sopro.
Agradece, sinceramente, à Sarinha pelos doces miados e despede-se da gataria, convidando o Grisalho Gato Gil a sentar-se no ninho da tertúlia.

Estava já eu a divagar por pensamentos estranhos aos estímulos visuais, quando sou toscamente interrompido pelo meu irmão, que silenciosamente tinha assistido ao programa:

" Fogo! - retorquiu espantado - já se falava assim tão à vontade na televisão em 1999?!? "

Engraçada esta barreira retinácula que limita a nossa visão e compreensão.
Não é a 1ª vez que um miudo me mostra 1 espanto monstro quando se apercebe que também na nossa infância existiam bisnagas, jangadas, pintarolas, consolas, desenhos animados e até gelados. Não me admiro se alguns pensarem que a própria linguagem terá 1 ou 2 séculos- no máximo!!
Seja como for, serviu de plataforma memorial.
Regressei aos meus tempos de infância. Recordei as alegres tardassas ao sol passeando com a malta nos campos e bosques, arranhando os joelhos com os tombos de bicicleta, os punhos e cotovelos com as zaragatas e a cabeça com as turras e cabeçadas mal dadas.
Na altura, os putos eram mais camaradas.
Compinchas de boné ao alto, partilhando a alegria da descoberta e a modéstia da partilha real, sem necessidade do tecnológico ou do virtual.
Era o sonho e a realidade. Era o sono e a actividade. Era a vontade de viver a utopia e não a verdade.
E era bom!
Às vezes chamam-me sonhador - sim P.A., é para ti :)
Não acredito em sonhadores, acredito em sonhos.
E acredito que todos os sonhos existem para se concretizar!
Engraçada, a percepção do sonho concretizável...

Abraços felinos

p.s. Nado num mundo muito misterioso, magro nos maus momentos - modernos monumentos melancólicos - mas mago, mitológico, místico mesmo, nas miragens - maretas magníficas noutras margens.
Nadem mais, nadem muito, nadem moderadamente, mas nadem! Nadem muito mais, não menos! Nadem na mente negligente, na nova maré nascente. Nadem no mar neguemtrópico, nadem mentalmente. Nadem no nada. Mudem no nada, nada não muda! Nunca nadem menos.
Nada mais mágico na natação nómade.
Nademos...

sexta-feira, janeiro 21, 2005

XXVI.Agradecimentos milenares

Às vezes dou por mim a pensar se este blog não será como uma minhoca - um absurdo, sem pés nem cabeça!

Constatei hoje que pelo menos 1001 visitantes tiveram a coragem de olhar para este absurdo e de "ouvir" o que ele tinha para dizer - é então, pelo menos, um absurdo para não-surdos!

Sim, tenho um counter no final do blog. É um contador inteligente, está dotado de 1 sistema de abs e só conta 1 vez por dia o mesmo ip.
Ou seja, não é como os sócios de nacionalidade Portuguesa do Benfica , que a esta altura já populam meia europa e 3/4 da América Latina - um blog absurdo para não-surdos dotado de abs, portanto!

Eu bem digo - Sem pés nem cabeça...

Bom, só cá vim mesmo dar 1 abraço virtual aos surfistas que fazem deste meu / vosso sítio, um espaço milenar.


p.s. O importante é que importa! Não importa a quem, não importa como, não importa porquê. Não estou importado com essas importâncias. Desde que importe...

sexta-feira, dezembro 31, 2004

XXV- A coincidência dos números

Quero desejar-vos o melhor ano de sempre.
Que o maior presente
seja a paz na vossa mente,
Que arrebente com as tristezas
E vos ponha contentes.
A vocês, e à vossa Gente!

Votos de um 2005 pesado em alegria e abastado em folia!

ass: abmip (o meu heterónimo mais "campestre, bucólico e folclórico")

Abraços alegres


p.s. no dia 20-05-2005 façam todos o pino e tentaremos entrar p o Guiness.
(25=20+05)

Feliz 2005!

quinta-feira, dezembro 16, 2004

XXIV. Auto-Prolfaças

PARABENS A MIM!

Quem quiser vir beber 1 copo no Sábado ao Quando Quando (foz) é só aparecer a partir das 23h.


Abraços convidativos

p.s. Estradas rectas, mulheres sem curvas e modems a 14.400 só dão sono...
Existo porque insisto!

XXIII.Kill Bill 3

A Saudade Vive.
Soube há pouco. Julgava-a morta mas enganei-me. E no entanto tenho a certeza que a vi morrer…
Não sei se sobreviverei à sua investida vingativa, tudo parece abrir-lhe o caminho. Avança confiante perante a floresta descoberta.
Pois que se abram as florestas, que se separem os desertos, que desapareçam as nuvens, que se apartem os Mares; serei eu quem te afogará Moisés!
Serei assassino esta noite.
Serei assassino mais uma vez. Não será a primeira vez que acabo com a vida da Saudade.
Sim, já me lembro…e no entanto ela volta, sempre volta.
Podes vir, estou pronto para ser consumido durante a noite. Mas prepara-te, ao primeiro vislumbre da luz do dia, cegarás pelo reflexo do meu machado.
Enquanto preparo a lista “Tarantinoyana” risco já o 1º nome que encabeçava a pirâmide das vítimas.
Acabo de matar a Saudade de escrever!
Pena a palavra Saudade não ter tradução para Inglês, mas sejamos pretensiosos, personifiquemos a Saudade na palavra “Bill”.

O Homem caça continuamente.
Somos todos exímios caçadores de sentimentos e a Saudade é uma das nossas presas predilectas.
Sempre que a sentimos movimentar-se na densa floresta sentimental, escondemo-nos por detrás de uma grossa àrvore à espreita da melhor oportunidade para a contemplar na mira estésica.
Nada sabe melhor que o momento dramático em que premimos o gatilho para acabar com a vida deste bifendido sentimento.
Naquele segundo somos, contudo, colonizados por antagonismos sentimentais: mato ou sofro?
É que o sofrimento saudosista também tem um doce travo sádico.
Quem não gosta de sentir o friozinho no estômago provocado pela Saudade?
Quem já não prolongou o seu efeito só para obter mais prazer no final?
Ter Saudades é uma espécie de adiamento orgásmico…mas nem sempre porque nós queremos.
Se saudade fosse um prato chinês seria “133. Saudade agridoce”.
Se fosse desporto era Boxe: Umas vezes socamos o adversário com aspereza e brutalidade, outras, abraçamo-lo durante alguns segundos impedindo que se liberte do quente e húmido abraço até recomeçarmos o festival de murraças de novo.
Ter Saudades e reclamar é como dar de beber a um bêbado com úlceras e no fim perguntar-lhe: Se sabes que bebes porque é que te faz mal?
No fundo todos “bebemos”, mesmo sabendo que nos faz mal.
Acho que a Saudade é o álcool sentimental do Homem.
Estudei o fenómeno e cheguei à conclusão que o Homem precisa de viver no limbo paradoxal entre o que é, e o que devia ser.
Chamei-lhe síndrome de Tradição-Contradição.
Por exemplo, como foi que a placa “ não pisar a relva” foi parar bem ao centro do jardim?
Porque é que há sempre um morcão que nos acorda a perguntar se estávamos a dormir?
Porque é que, se as caixas pretas dos aviões são indestrutíveis, não se constroem os próprios aviões com o mesmo material?
Porque é que se Deus é Omnipresente as pessoas olham sempre para cima para falar com Ele.
Porque é que os Chineses e os Japoneses fazem sempre desenhos animados com os olhos enormes?
Tradição-Contradição!

Gostamos de sofrer com as Saudades, gostamos de caminhar no estado ébrio pelas florestas virgens do pensamento saudosista.
Esperem…
Senti-a de novo.
Está distraída a passear o seu animal de estimação - a Melancolia.
Se querem apanhar a Saudade desprevenida o melhor é esperar pelo seu passeio diário com a mascote.
A Melancolia vive na moradia da Saudade. Dorme grande parte do dia e só acorda para se alimentar e para o passeio de fim de tarde. É vê-la a saginar-se das tristezas, depressões e solidão que nos visitam de tempos a tempos. Há alturas mesmo em que pasta com fartura. Regala-se com os rangos depressivos e armazena algumas energias para os tempos difíceis de esporádica alegria.
Nos meus "tempus quos" deve estar faminta... coitada, depressões e tristezas são coisas que não tenho tido o desprazer de revisitar ultimamente. Mascote sofre hein?
Bom, se realmente querem apanhar a Saudade apanhem 1º a mascote.
Matem a mascote e só depois o dono.
Deixem a Saudade viver e respirar bem até à altura certa.
Hoje, a Saudade Vive. Sim, vive e viverá porque a ressuscitamos sempre que dela precisamos.
Na verdade eu adoro ter Saudades, desde que saiba que quando quiser as posso matar.
A Saudade é o Zombie residente no interior de cada um de nós.
E tal como nos filmes Gore, sempre que se pensa ter morto o Zombie, eis que ele surge mais tarde no filme para nosso grande gáudio. Assusta-nos mais 5 minutos e acaba por sucumbir de forma dramática nas mãos do herói.
O Herói somos nós, e a Saudade é o Freddy que sempre aparece numa nova sequela do Nightmare in Elm Street.
Espero que nunca ninguém tenha feito analogias entre a Saudade e os filmes de Terror... é que só tem piada se for exclusivo.

Tinha Saudades de ter Saudades e agora que as tenho já não posso esperar para cometer novo crime!

Estar Saudoso é custoso mas saboroso.
É pecado abençoado, é ter o carro emprestado.
É prolongar o prazer, ter e não querer, é poder ler e não saber escrever.
Estar Saudoso é ser guloso.

Saúdo a Saudade, sublime sentimento do Homem só.
Saúdo a capacidade que temos de a transformar em pó.
Saúdo o facto de contantemente a assassinarmos sem dó,
Sabendo contudo que mesmo assim chegará a avó.

abraços mortíferos

ps. " E esse é o maior dos sofrimentos: não ter por quem sentir saudades, passar pela vida e não viver. O maior dos sofrimentos é nunca ter sofrido. " (Pablo Neruda)

domingo, novembro 21, 2004

XXII.Esplanada da Consciência

Estar relaxado hoje em dia é, quase sempre, estar a leste das responsabilidades.
É ser indisciplinado, frouxo, entibiado. É assumir o egoísmo de procurar o bem-estar pessoal, sem pensar no que o outro pensa. É agir de forma despreocupada, é ser Nada e sorrir na esplanada da indiferença.
É obrar de alto, como se costuma dizer… dormir à sombra da bananeira, como se costuma fazer.

Chamo-me esaspson e fui castigado pelos do meu planeta por ser uma pessoa dissoluta, um prostituto do marasmo.
Condenaram-me a 10 anos de existência num planeta-prisão (Stressão) mas fugi. Subornei meia-dúzia e substituí o meu lugar por outro condenado. Este mereceu o infortúnio, pesado bastião do relaxamento, nem os olhos abriu para ver o motivo do tumulto criado pelos guardas que o arrastaram para fora da nave estelar. Por minutos senti-me stressado ao ver tão mórbida ataraxia. O Mar da tranquilidade ao pé deste epicurista inanimado está revolto.
Tinha apanhado perpétua mas como tinha cunha iam enviá-lo para o planeta (Relaxão) para desaparecer do mapa sem stresses para ninguém.
Ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, murmurei à minha consciência.
Chegamos. Fui transportado quase clandestinamente por um dos guardas subornados – comprei-o com 7 conselhos práticos sobre como conter os nervos.
Levantou o braço, fechou a mão e ergueu o defeituoso dedo apontador para uma porta dupla, soltando um trémulo – “É ali!” – enquanto mirava todas as esquinas à procura de olhares curiosos.
Entrei. A sala fora inundada por uma doce penumbra, estava já inebriada por um leve aroma de incenso de coco.
Reparei de imediato no universo demográfico. As poucas pessoas – mulheres, todas – pareceram simpáticas e o espaço afável. Tudo o que um ex-condenado merece.
O receio do desconhecido fez-me, contudo, caminhar suave e silenciosamente os parcos metros até à instrutora. A meio da travessia já estava convencido que no final iria fazer a viagem de retorno sem precisar de entrar em contacto com Houston. Não vislumbrei qualquer indício de problemas.
Aproximei-me dela. Era a minha primeira vez ali, e como em todas as primeiras vezes estava nervoso.
A voz serenou-me. Tinha uma voz suave, nem aguda nem grave, mas profunda, como que se uma voz segunda entoasse em uníssono as sílabas redondas desenhadas pelos lábios desinibidos.
Era uma voz melódica, anti-fóbica, uma voz segura, sem qualquer oscilação ou tremura, uma daquelas vozes que já levaram muitos à loucura por serem, por ela, atingidos.
Houston, continuamos sem problemas – sorri-disse para mim mesmo.
Sentei-me a olhar para o som da voz. Segui-o por toda a parte durante todo o tempo em que permaneci naquela sala. Só mais tarde senti o som de uma música, também ela suave, que deslizava pelos corredores de ar até se desintegrar contra uma parede.
A voz chamou o meu nome.
Nunca uma voz o tinha dito de forma tão delicada. Se aquela voz tivesse cor era Rosa suave, se tivesse forma era Rosa vermelha e se tivesse maldade era espinho de Rosa branca.
Aproximou-se de mim.
Fechei os olhos enquanto me colocava, um saquinho de areia, julgo que era areia, perfumada em cima das pálpebras.
Incrível sensação de peso. Por pouco me esmagava a alma. Falo de um peso metafísico, uma força avassaladora que me devorava os sentidos. De repente tive sono, desejo, aspiração, esperança; tive fantasia, ilusão, devaneio, tive viagens, tive miragens, tive abordagens quiméricas da vida, do sonho, do desejo e do sono.
Regressei. Esbocei um leve sorriso que não passou despercebido. A voz viu e sorriu também. Quem mo disse foi o vento.
Aconchegou-me com uma almofada debaixo dos joelhos e ensinou-me a respirar.
Era a minha primeira vez, e como em todas as primeiras vezes estava nervoso.
Ensinou-me que existem vários tipos de respiração e exigiu-me que só respirasse pelo nariz. A boca serviria somente para falar. Somente. Só mente e nariz para a respiração, portanto. A mente seria a calculadora para contar os segundos do processo, o nariz, a canalização das bombas pulmonares.
Respirei então pela primeira vez.
Ahhh!!! Como é revigorante o Oxigénio.
Depois de respirar uns minutos comecei claramente a ouvir a música de fundo. Já conseguia absorver todos os estímulos que se desencadeavam à minha volta.
Começaram os exercícios.
Incrível tensão a que os músculos se sujeitaram. Imaginem que estão a encher um balão e a partir de certa altura sabem que se continuarem a encher ele acabará por rebentar. Os vossos olhos ficam então semi-cerrados à espera do trágico final, e enquanto o desfecho não chega começam a pestanejar cada vez mais repetidamente.
Ao fim de breves segundos deixei de ver, tamanha a velocidade pestanejante dos meus auxiliares oculares.
A dor agudizou, o lábio sofreu um decalque e os dentitos foram repreendidos, ainda que docemente, pela voz – sempre atenta.
“Não se deve morder o lábio inferior quando a dor agudiza”- resmungou.
Acha ela que é dar parte de fraco. A dor é um adorno psicológico.
A dor não dói, não pode doer. O Averno – lago na Campânia onde os Latinos localizavam uma das entradas para o Inferno – está na realidade seco. O sofrimento evapora-se, desde que a mente, e somente a mente, o queira.
Para isso, a mente mente ao corpo dizendo-lhe calmamente: “Não dói”.
Mas doeu, e sorrateiramente preguei outra mordida no lábio que não se fez rogado.
Ao fim de todos os não dolorosos exercícios veio o Silêncio.
A voz escondeu-se por detrás de uns acordes musicais silenciosos. Por vezes a música consegue ser silenciosa. Se acham estranho, mais estranho deviam achar o Silêncio que é por nós muitas vezes entendível. Pensem bem nos locais onde impera o silêncio, serão mesmo silenciosos? O próprio ar é ruído, por isso o silêncio, na nossa atmosfera, pelo menos, não existe. Mas nós acreditamos que sim. E aqueles acordes foram também eles vítimas de uma crença.
Ouvi o Silêncio durante uns 7 longos minutos. Durante este envelhecimento senti-me relaxado de uma forma absurda. Tive quase uma “near-death experience”. Morri enquanto massa corpórea dolorosa. Só senti a inexistência.
Respirei fundo. Abri os olhos sorridentes e descrevi um falso não com a cabeça enquanto olhei para a direita e para a esquerda.
Sintomas idênticos nos inexistentes perto de mim.
Levantei-me e disse à professora de Yoga: “Gostei imenso, obrigado e até para a semana”.

Estar relaxado hoje em dia é, quase sempre, estar por cima das responsabilidades.
É ser disciplinado, pró-activo, vívido. É assumir o egoísmo de procurar o bem-estar -universal, sem pensar no que o outro pensa. É agir de forma preocupada, é não pedir Nada em troca e sorrir na esplanada da consciência.
É olhar de alto, como se costuma dizer…dormir na rede da bananeira, como se costuma fazer.
É respirar.


Abraços oxigenados

p.s. No princípio era a Indiferença …

sábado, novembro 13, 2004

XXI.Premissas sem padres

Hoje estou endiabrado!
Tenho o diabo no corpo e quando ele sai, só sai asneira, logo o diabo é asneira.
Se o diabo é asneira e asneira vem de asno, logo o diabo é burro.
Se o diabo é burro, é escuro, logo o diabo é negro.
Se o diabo é negro, suporta melhor o calor, logo vive no inferno.
Se o diabo é negro e vive no inferno, é queimado, logo o diabo é descriminado.
Se o diabo é descriminado, é injustiçado, logo o diabo é fraco.
Se o diabo é fraco, faz pena, logo eu tenho pena do diabo.
Se eu tenho pena do diabo, sou piedoso, logo sou como Deus.
Se sou como Deus, sou omnipotente, logo posso ou não acabar com a Injustiça.
Se posso ou não acabar com a Injustiça, sou omnipotente, logo sou como Deus.
Se sou como Deus, sou piedoso, logo tenho pena dos diabos.

Agora percebi : "Senhor, tende piedade de nós..."


Abraços endiabrados

p.s. Eu sou as 7 pragas sobre o Nilo.
Ass. o meu heterónimo - esaspson

XX.Supermercado do Desemprego

Certas coisas passam, certas coisas ficam, certas coisas compreendem-se, certas coisas depreendem-se, certas coisas edificam-se; certas coisas tornam-se coisas certas, certas coisas tornam-se coisas incertas, certas coisas acertam, certas coisas desertam, certas, são as coisas que temos como coisas certas mas que não o são!
O desemprego é uma dessas coisas.

O desempregado vive numa prateleira. Quanto mais tempo lá fica, mais camadas de pó sustenta e menos atractivo se torna para quem passa no supermercado do desemprego em busca das compras do mês.
Todos os dias são expostos novos produtos, todos os dias se publicam novos anúncios desses novos produtos e todos os dias novos desejos e necessidades exigem os novos anúncios que publicam sobre os novos produtos. A novidade vende.
Há medida que o tempo passa, o produto empoeirado é empurrado para trás da prateleira para que a mesma se ponha mais bonita. Às vezes ficam tão lá no fundo que se julgam inexistentes, ninguém se lembra que lá estão, já não fazem sequer parte do stock da loja, são produtos clandestinos.
Alguns têm sorte, às vezes são remexidos no meio da indecisão da compra e são recolocados na primeira linha da montra podendo ser confundidos por produto recente; outros, aguardam pacientemente que o repositor fique doente e deixe de trazer gente atraente, quero dizer, produto novo; a maior parte, inocente, deixa-se ser empurrada lentamente.
Ter poeira às vezes quer dizer ter vaidade, presunção, mas no caso dos supermercados a poeira é pura esqualidez. E a esqualidez não vende.
A montra do emprego tem que ser por isso uma montra asseada, bem arranjada, tem que ser uma montra com produtos bem embalados e com a data de validade recém-impressa, tem que ser um novisco vitrinal – uma montra da moda.
Produtos antigos não são bem-vistos, não são bons registos, são uma espécie de Cristos embalados. A vetustez é espancada e crucificada pelas leis das montras.
De vez em quando, o gerente do Supermercado vem dar uma olhada nas prateleiras.
Quando encontra estes falsos Messias grita para o repositor :“Aquele produto já está a ganhar raízes, é despachar, é despachar!”, e lá vem o Judas dar uma oportunidade ao velhote. Pega desajeitadamente no pobre Cristo, embriaga-o com uma baforada de vento alcoolizado tirando-lhe o pó superficial e quase os sentidos, esfrega-o violentamente na farda como se de uma masturbação se tratasse e coloca-o bem no meio da fachada. No fim da mesma semana é o 1º a dar o empurrãozito…

O desemprego é uma coisa incerta, é certo.
Certo é também que os empurrões são úteis, desde que não sejam para o fundo da prateleira. Os empurrões têm que vir de trás. Ainda que custe aos heterossexuais, a verdade é que temos que ser empurrados para a frente, para a 1ª linha da vitrina.
E o maior empurrão deve ser dado pelos gerentes, pelo gerente da secção, depois pelo gerente da loja, pelo gerente do grupo empresarial e por fim pelo gerente do País.
Hoje constatei de novo que o Gerente do nosso País é uma coisa incerta.
É dos que tanto empurram para a frente como para trás.
É um Gerente Gay, no fundo.
(Não que tenha nada contra os Gays, talvez só o facto de também eles serem coisas incertas.)
O Gerente Gay não pode ser parte activa no processo do empurranço, ele tem que funcionar como uma alavanca que desencrava, como uma bengala que suporta, como uma calçadeira que ajuda a meia a deslizar para dentro do sapato, por muito grande que seja o pé.
Mas como certas são as coisas que temos como coisas certas mas que não o são, engano-me.
Na verdade, o Gerente Gay não é a calçadeira dos Cristos, não é o demónio da Tasmânia devorador de crucifixos. O Gerente Gay é uma retro-escavadora retrógrada que faz retrotrair a marcha dos que querem andar para a frente.
Reles Gerente Gay, nem sequer percebe quando parar.
Só pensa “no Retrocesso”, mas não compreende que está a cometer um erro de interpretação. Retrocesso não é RectoCesso. E mesmo que fosse…
Retro cesso não é Retro avanço – no Cú, paro, é bem diferente de, no Cú, avanço.
Pára Gerente Gay, pára porque aqui não avançarás!
Bom, é melhor parar por aqui.

Hoje uma amiga professora confessou-me que tinha sido colocada. É uma pessoa enérgica, sempre disposta a trabalhar.
Trabalha em 2 sítios diferentes, não tem grande tempo para borgas, mas arranja sempre que a ocasião o merece e está sempre bem-disposta, contagiando toda a gente com o seu bom-humor.
Soube hoje que tinha sido colocada numa escola por 1 mês – motivos de substituição por doença. Eu repito, por 1 mês.
Para ir exercer o seu dever tem que deixar de trabalhar nos 2 sítios que lhe dão o ganha-pão ao fim do mês.
Porquê?
Porque o Ministério da Educação não permite acumular funções.
Ou faz uma coisa, ou outra.
Se escolher não aparecer na escola e permanecer nos seus trabalhos efectivos deixa de se poder candidatar aos concursos para a colocação de Professores nos próximos 2 anos.
Repito, foi colocada por 1 mês para efeitos de substituição.
Se deixar os empregos, ao fim de 1 mês fica desempregada.
Afinal, o emprego também é uma coisa incerta.
Perdão Gerente Gay, afinal tens razão, é mesmo Recto Avanço!

Abraços revestidos de chumbo

p.s. no fim seremos todos pacotes amassados no fundo da prateleira, mas a fé é a tábua de passar a ferro da nossa vida, aliás, é o próprio Ferro. Se um Homem vive é porque acredita em algo.
E eu acredito.

"A mais bela certeza de todas acontece quando os fracos levantam as suas cabeças e deixam de acreditar na força dos seus opressores."
B. Brecht

terça-feira, novembro 02, 2004

XIX.Dia D de doidos

Hoje é o dia D - "D" de desembarque da democracia dos doidos.

A esta hora Bush acabou de exercer o seu direito de voto no Texas - julgo seriamente que tenha votado no 3º candidato - Nader.
Porquê?
É suficientemente perspicaz para não votar no Kerry e suficientemente inteligente para não votar em si mesmo, resta portanto o candidato independente Ralph Nader que, a meu ver, ultrapassará certamente a barreira do 1 % dos votos.
Seja como for, Nader deverá ser o terceiro mais votado nestas eleições.
Em Portugal, o PP, entenda-se Paulo Portas, foi o 3º mais votado nas eleições.
A diferença das grandes nações vê-se nas pequenas razões: nos EUA quem manda é mesmo o 1º classificado, cá nem sempre...

Hoje, é também o dia "D" de desembarque da diferenciação dos doidos.

A Visita ao Castelo de S Jorge em Lisboa vai ser agora delimitada por uma medida no mínimo xenófoba. Reconheço o exagero, mas a verdade é que todos os estrangeiros a Portugal ou a Lisboa pagam, os alfacinhas não!
Promova-se o Turismo, criem-se tarifas pelas vistas durante as travessias nas pontes e por qualquer edifício com mais do que 2 andares!
Melhor, institua-se uma comissão qualificadora de vistas e estabeleçam valores standart por qualquer vista, uma espécie de imposto visual- a concretização do Ver para Ser.
Se queres Ser, tens de Ver e para Ver tens de pagar a Valer!
Acabem com o Voyeurismo!!!

Abraços doidões

p.s. Esta semana, mais um recorde na lotaria: seis milhões, quatrocentos e vinte mil, trezentos e oito perdedores.

sábado, outubro 30, 2004

XIII.Não desviem o olhar - parte I

Já ando para escrever sobre este tema há algum tempo… cá vai.

Não esperem nada de muito interessante, este não é um tema propriamente novo, não é realmente oportuno, nem sequer é um tema apaixonante.
Lamento muito.
Trata-se pois de um tema vulgar, ordinário.
É um tema que se desenvolve do lado de fora das janelas das nossas vidas. É um tema alheio, para muitos; um devaneio, para outros; uma evidência incontornável para quase todos.
É um tema terrorista, que só serve para nos fazer ter medo da nossa própria consciência. Serve de meridiano entre o onirismo e a realidade, o logro e a verdade.
Chamemo-lo de tema-despertador.

Todos nós vivemos dentro de uma redoma de vidro. Pode ser uma redoma grande ou pequenina, depende da nossa vontade visual.
O vidro, côncavo, é especial, torna-nos um pouco míopes, impede-nos de ver muito longe. Pior, é inteligente, foi criado para exercer uma filtragem normal, através dos preconceitos banais, mas aprendeu a interpretar a informação. Agora filtra de acordo com os seus desígnios liberticídios.
O vidro transformou-se pois na nossa auto-censura domingal.
Quando a redoma se quebra, acordamos bruscamente num Admirável Mundo Novo. Percepcionamos uma realidade até então irreal, que não figurava sequer nos nossos pesadelos. Transitamos do estado autista para o psicótico e somos obrigados a engolir, num trago violento, 1 shot de Red Bull, que nos faz estremecer enquanto escorrega pela garganta abaixo, libertando todos os órgãos acorrentados, desde os lábios áridos até à faringe, do esófago ao estômago, só terminando na libertação suprema – a da mente!
A libertação é custosa, a princípio queremos voltar para a redoma, queremos correr, qual Tom Sawyer, nas margens do nosso Mississipi ilusivo. Queremos descer do topo da gávea do Navio Realista. Agora vemos tudo à distância, vemos e sabemos, já não podemos não fazer nada e ficar de consciência tranquila. Já não podemos continuar a fingir que a a Realidade é bonita, temos de ser leais com ela. Mas custa muito ser Leal com o Real, é como a lei, a Realidade – dura – mas é a Realidade!
Lamento muito.
Não a aceitar é precisamente mais uma forma de discriminação…

Pois bem, chegamos ao ponto nuclear deste meu textinho: a discriminação.
É a discriminação que nos veta a informação. Age como uma barreira liposa que engordura os já remelosos olhos. Mas não devia.
A palavra comporta hoje em dia um peso negativista impressionante. O conceito foi vinculado a quezílias universais que a carimbaram de "assunto non grato".
Discriminação significa, em sentido lato, distinguir, diferenciar, separar.
Então porquê esta carga negativa em torno de uma palavra equivalente a tantas outras? É simples, penso que cada palavra tem uma emoção atrelada. Há medida que vamos, ao longo da vida, fazendo os updates à nossa linguagem, vamo-nos imbuindo de indicadores emocionais - patches gratuitos inerentes ao download – que se vão instalar na nossa memória principal.
Estas lapas afectivas são de fácil acesso, e mesmo quando o nosso processador não tem capacidade de “cache” suficiente para recordar um significado, as lapas tratam de disparar imediatamente a sua informação. Por isso, muitas vezes não sabemos o que uma palavra significa, mas sabemos qualificar o seu significado de bom ou mau, sabemos se tem uma conotação positiva ou negativa.
Em relação à discriminação, anda por aí muita gente sem memória “cache” a recorrer à memória emocional.
O problema da memória emocional é que por vezes é um "false friend".
Há que ter em conta a evolução semântica que as palavras sofrem ao longo dos Tempos - mudam os tempos, mudam-se os significados.
Por exemplo, há dias, numa aula, estudamos a etimologia da palavra "Administração".
"Ad", em latim, sugere "tendência para algo"; "Minister", sugere "subordinação" - o ministro do Rei era o subordinado, o que prestava os serviços. No fundo, à letra, administrar, significa, "tendência para a subordinação", quando na realidade o que se passa é o oposto. O ministro de hoje tem tendência para o comando.

(continua )

domingo, outubro 24, 2004

XVII.Ver para Ser

Fui pai pela 16ª vez há 3 dias.
Hesitei antes de aceitar o meu rebento, pensei, repensei e aceitei. Aborto, nunca com a minha autoria!
Dei tempo ao tempo, deixei o espermatídio tornar-se embrião, vi o feto, deixei o feto tornar-se feito, vi-o feito e deixei-o sair, respirar e contemplar o Mundo ao seu jeito.
Apresentei-o a 2 amigos, mostrei-lhe o Bom e o Mau, o Belo e o Feio, mostrei-lhe a Vida, o lado Jovem e Vetusto, o Justo e o Injusto, o Entusiasmo e a Maturidade, o Alfa e o Ómega…mostrei-lhe tudo sem custo.
Ele gostou. Agradeceu-me muito e depois pediu-me que o guardasse.
Preferia dormir para já.
Assim fiz. Guardei-o, pu-lo a salvo dos olhares gulosos, escondi-o dos curiosos e salvei-o de terrenos arenosos.
Ainda senti que pululava de energia quando fechou os olhos. Estes, mentirosos, lutavam com as pálpebras freneticamente. À medida que a cadência orbital aumentava, a visão diminuía, a forte pálpebra extinguía os últimos ângulos visuais, tornava-os imortais. De repente, implodiu, virou-se em posição de escadinha e sorriu, sorriu docemente e adormeceu flauteado.
Até outro dia pequeno texto!
Dorme sossegado, 1 dia serás publicado. 1 dia serás grande, serás conhecido e reconhecido como o 1º a escolher a Paz à Guerra, a Visão à Cegueira, o Sonho ao Realismo. 1 dia serás puro catecismo!
Por ora…dorme, pequeno texto!

Abraços silenciosos

p.s.

Hoje Vejo!
E o que Vejo Sinto.
E Sinto que não vejo o Mundo como o Vira antes de Sentir.
Vejo ao longe as fases, as guerras, as pazes
Vejo as frases, que, de tanta honestidade, são capazes
de ver mais além que um longo olhar,
voar mais rápido que um ágil pensar.
Sim Vejo!
E vejo que Ver é sentir a dobrar.
É odiar, é amar, é esgotar os outros sentidos,
perdidos, numa fugaz luta de sobreviventes.
Sobrevivem os pequenos – mentes!!!
Espreitei, nem sei porquê.
São coisas singulares, átomos pares…
Espreitei e vi! Nasci e interrompi a negra
escuridão, quebrei a escura maldição, afirmativei o Não.
Vi, um dia, e lancei a hegemonia numa correria
sem fim. Vi-me a mim. Vi-me sem mim.
Vejo-me agora assim, mas Vejo!
Amanhã Verei de novo!
Hei-de Ver sem parar, sem me acobardar,
hei-de Ver a triplicar, Verei até cegar!
Amanhã, prometo que Verei devagar!

terça-feira, outubro 19, 2004

XV.Ensaios sobre a solidão

Desde que garoto que sinto peculiar atracção pelas coisas pequenas.
Lembro-me de assistir a partidas de futebol, ou de qualquer outro desporto e de torcer sempre pela equipa mais fraca - mais pequena.
Lembro-me de estar na escola ( 5º ano ) com os meus amigos e de espreitarmos, cabisbaixos e meio escondidos, as coças que os repetentes - os grandes - davam aos caloiros como eu, enquanto lhes comiam as doces sandes de marmelada. Lembro-me claramente de desejar que os pobres putos – os pequenos - ganhassem forças hercúleas e arremessassem os furunculosos mancebos contra uma quina do lago enquanto lhe rebentavam a gorda borbulhagem ao ritmo de uma valsa de murraças graciosamente aplicadas.
Lembro-me de ter atingido a idade de ter clube e de ter escolhido ( na altura ) o mais pequeno dos maiores: o FC Porto.
Sempre gostei de pessoas grandes na humildade e pequenas na ostentação, sempre me deliciei com os pequenos actos e louvei as suas grandes consequências. Sempre engrandeci a pequenez das coisas.
Grandes coisas pequenas!!
Talvez por isso ainda não tenha tido a coragem necessária para sair do meu Portugalzinho. É um país pequeno, demasiado pequeno, tão pequeno que se alimenta somente das escassas migalhas de pão e restos de marmelada que caem da mesa de festim dos gordos papões borbulhentos. Portugal é um pequeno caloiro a levar tareia dos repetentes. E eu gosto dele por isso.
Mas não quero aqui começar a falar sobre o meu País. A razão que me levou hoje a escrever é outra, mais pequena, e como tal, ainda mais do meu agrado.
Como disse, ainda não tive nem coragem nem vontade de partir e de ir recolher as migalhas para outro lado. Mas conheço que já o fez.
Se existem pessoas que não me conseguem surpreender, há outras que me deixam atónito de admiração e espanto. São as pessoas pequeninas. Aquelas que parecem viver numa redoma, sempre protegidas, sempre comedidas, sempre com medidas de vida muito exactas e pouco espontâneas.
Foi uma dessas pessoas pequeninas, para mim mesmo minúscula, que me disse um dia que ia partir para terras magiares – pequenas - em busca de maiores migalhas.
Bem, lá se foi a teoria da falta de espontaneidade.
Na altura perguntei-lhe se não tinha medo da solidão – disse-me simplesmente que sim.
Podia ter respondido de forma épica, com um grande discurso auto-motivante, daqueles que roçam a demagogia partidária e quase nos convence das balelas que acabamos de inventar. Mas respondeu simplesmente que sim. Uma resposta pequena, com uma palavra pequena, vindo de uma pequena pessoa que tenho como minúscula. Adorei.
Ao fim de alguns anos o medo da solidão já terá passado, mas não o seu efeito.
Tento imaginar como é partir para outro País sem conhecer ninguém.
Bem, foi isso mesmo que me trouxe aqui, vamos imaginar…

Decido partir. Aviso pais e amigos e apanho o avião. O arrepio de olhar pela última vez para tras ao entrar no pássaro de metal só é suplantado pelo calafrio da descolagem e pela azia digestiva de umas já saudosas Tripas à moda do Porto.
Chegada. Ninguém à nossa espera. As malas parecem maiores, em maior número e definitivamente mais pesadas. O que está a dizer aquele palhaço ridiculamente fardado? Será que não vê que não é fácil levar tudo isto sozinho? Em vez de gesticular podia usar os braços para me ajudar.
Saí do aeroporto e não percebi uma única palavra do que foi dito à minha volta. Sorri ao pensar que os podia insultar a todos sem sofrer represálias.
O taxista foi simpático. Arranhava o Inglês e conhecia 3 palavras em português: Figo, Ronaldo e Porto.
Duas semanas depois descobri que me levou pelo caminho médio, não apanhou o mais longo -deve ter ido com a minha cara.
Os travões arrepiaram-me pela última vez, estávamos à porta da moradia. Bem diferente das fotos da Internet…
Abri o portão – novo arrepio – escalei lentamente as escadas enquanto olhava de lado até os olhos quase saltarem das órbitas para a estranha fachada.
Premi a campainha – novo arrepio – esta gente é completamente masoquista pensei. A porta abriu-se – sem arrepio – e fui simpaticamente instalado.
2 meses depois estou sozinho no meu quarto a falar com os meus pais enquanto lhes conto as últimas novidades. Estou integrado num belo grupo de amigos de outros países e adoro viver onde vivo. Desligo o telefone e vou à cozinha. Preguiçoso, deixo os chinelos na sala e empoleiro-me nos dedos dos pés. Ao abrir a porta levo com uma gélida bofetada de vento à qual respondo com um potente espirro….aguardo…..respiro fundo e murmuro : “santinho!”

Desconfio que a solidão é um ente paciente.
Aparece inesperadamente em nossa casa e instala-se na poltrona da sala. A princípio, talvez tentemos ignorar o sádico visitante, recorremos a todos os truques para o convencer que ele está no local errado.
Mas aos poucos acabamos por agradecer a sua presença, sempre é melhor do que estarmos sozinhos.
A solidão torna-se então a nossa melhor companheira.
Ao fim de algumas semanas, estamos a tomar café com ela, a ler com ela, a rir com ela e a partilhar segredos com ela.
A solidão somos nós mesmos, é a nossa voz interior. É a pessoa a quem contamos tudo, o interlocutor dos nossos monólogos.
A solidão não existe então. O Homem nunca está portanto só. Está sempre acompanhado por si mesmo.


( continua ou talvez não )

Abraços pequenos

p.s. À minha minúscula Amiga húngara 1 beijo microscópico de companhia.

quarta-feira, outubro 13, 2004

XIV.Os 3 condicionamentos

Imaginem uma raça de seres.
Imaginem que são seres inteligentes, muito inteligentes, tão inteligentes que o conceito de inteligência que nos é inteligível é para eles completamente obsoleto.
Imaginem agora que estes expoentes intelectivos decidem finalmente partilhar as suas riquezas intelectuais com os seus irmãos universais, tornando unível o conhecimento gnoseológico entre os povos.
Começa a jornada. A cúpula intelectual do Planeta reúne-se pela 1ª vez nas recém-formada Assembleia Galáctica.
Braços gesticulam entusiasticamente num ar denso de uma atmosfera bem menos gasosa que a nossa, enquanto desvendam emaranhados estéticos salientes dos 4 dedos esguios desprovidos do nosso útil pólex ( polegar ) e das nossas teimosas unhas. A agitação é contudo controlada. Bem diferente das farras grotescas que se praticam nos conselhos deste planeta imaturo.
Muitos copos de ataraxia ( bebida típica ) depois......
O PA foi finalmente acordado. Perdoem a vertente traiçoeira da língua mátria, não foi um monstro chamado PA que acordou de um sono profundo, foi o Planeta Alvo que foi seleccionado e aceite unanimemente. - a Terra, pois claro!
Desde tenra idade que somos vítimas de 1 asseio mental muito apurado desencadeado por todo 1 conjunto de manipulações, truques e regras/normas instituídas socialmente. Já abordei o tema anteriormente.
Relativamente a uma invasão alienígena temos vários condicionamentos que nos vão sendo implantados ao longo da vida:

Condicionamento Hollywood

O vento ergue-se em turbilhão formando diminutos furacões comicamente irados num qualquer parque nova-iorquino.
À medida que os mendigos, os sem-abrigo e os bêbados sem-abrigo que mendigam erguem os olhos para o vácuo pseudo-azul, um tumulto sub-grave enche metade dos nossos pulmões com suspense, subitamente, o exército das sombras abate-se sobre aquela cidade.
É aterrador ver edifícios infinitos, daqueles que rompem a membrana himenal celeste, serem devorados, engolidos, tragados e aturdidos por uma nódoa escura que se parece manifestar a 50% da sua opacidade, deixando transparecer a figura original para a recordarmos com saudade. Logo após os marginalizados, é a vez dos animais darem o rebate - uns optam pelo síndrome do fim-do-mundo clássico, correndo em círculos crescentemente concêntricos; outros optam pela vertente imediatista do mesmo, procurando seduzir a fêmea mais próxima em claro acto de desespero; a maior parte emite em uníssono os sons odiados pelos humanos que, na realidade, mais não são do que as preces de revolta dos pobres bichos face à agonia de terem sido subjugados por uma raça afinal tão reles e sub-desenvolvida como a raça Humana; a minoria dorme avidamente o último sono livre.
Rapidamente e de forma perspicaz, os Humanos normais começam a aperceber-se que há um enorme pires no céu. Não é um pires vulgar, para além de ser gigante, este é de metal e voa.
Um automobilista decide parar e sair do carro para mirar, com a mão em jeito de continência, o titânico objecto. À medida que a sua curiosidade força o cérebro a disparar ordens precisas aos músculos do pescoço e coluna vertebral para erguer a cabeça, os lábios separam-se como se 2 corpos num estado pós-orgásmico se tratassem. A admiração é, no entanto, vorazmente acometida pelo idealismo comercial. Que oportunidades de negócio se nos apresentam meu Deus!

Condicionamento Teenager

Estamos em casa com a namorada, as velas atingiram já uma hipnótica velocidade de cruzeiro e o perfume que exalam entranhou-se nos pêlos do nosso nariz provocando uma sensação de bem-estar olfactivo permanente.
Na mesa despida, rosas vermelhas levemente embriagadas com a mistura do odor do círio e dos bombons de rum que configuram um coração, escutam as vibrações musicais.
No sofá fofo, equipas de almofadas tratam de garantir o conforto aos corpos pesados de tanta sensualidade. Acompanhamos o refrão de "Sexual Healing" alternando a cadência rítmica com beijos suaves e leves mordidelas no lábio inferior da musa terrestre, a cada acorde um novo suspiro, a cada estrofe uma roupa despida, a cada tema uma palavra nutrida de sedução comprimida...
Ahhh como são doces os preliminares!!
Eis que muda o tema, a vibração é mais intensa, o wha wha cíclico obriga-nos a respirar mais gulosamente. Em punhos cerrados, alguns cabelos sofrem na pele as consequências da excitação sexual. Os mais sensíveis sucumbem aos prazeres carnais enquanto a densa cabeleira ri em êxtase, qual Roma "pintada" por Salviano.
A permanente troca de táctica, ora ao ataque assumido, ora à defesa apetitosa, deixa antever um final cada vez mais próximo. Da suavidade inicial resta apenas a imutabilidade das almofadas caídas pelo chão. A luta decorre com uma banda sonora mais psicadélica, a ironia é bem-vinda - " can you feel a little love" - os corpos prometem resposta sincera à questão "depechiana" e investem novamente um contra o outro numa quezília equilibrada.
Os sentidos falham, os olhos arregalam-se por 0.0356 segundos e as cordas vocais esboçam um gemido equivalente aos que emitem os violinos nas mãos dos inexperientes - estavam dados os fatídicos 3 sinais, o final estava por 1 fio-de-navalha.
A segurança de ter prestado uma bela homenagem à capacidade sexual masculina dá-lhe coragem para invocar as leis da Matriz :" tudo o que tem um início, tem que ter um fim". Convicto, o tenso tronco prepara-se para o último movimento de libertação quando, repentinamente, a porta da sala é aberta com um estrondo dantesco.
O susto provoca meio ataque cardíaco aos pobre apaixonados, mas eis que no espaço de 0.01778 segundos aparecem 2 vultos aterrorizados a gritar : " Estamos a ser invadidos por extraterrestres!!!!!! "
Morte cardíaca confirmada 2 horas depois.

Condicionamento hippie

Névoa...Reagge...Incenso...Chocolate...alienados...liberal...saco-cama...barraca.

O fim-de-semana passou-se maioritariamente na cabana abandonada da Praia.
Ela trouxe o saco de pôr em cima da cama - o saco-cama- para não termos que andar com cobertores de um lado para o outro. Fumamos os 2 a mesma quantidade, fui eu mesmo que fiz a divisão.
No 1º dia passeamos com 1 tipo muito culto mas ainda iniciado nas artes das tranças. É liberal. Trabalha numa liberaria a vender liberos de Yoga e ciências ocultas.
Explicou-nos que não estamos sós no universo. Há muitos como nós que partilham o mesmo Chocolate sem divisões manhosas.
Isso é Incenso disse-lhe! Não faz sentido nenhum! Fomos nós os Portugueses que inventamos o Chocolate na guerra Colonial...depois vendemos a receita quando descobrimos o caminho marítimo para a índia e propusemos Franchising aos Orientais uns anos mais tarde através do Marco Paulo. Mas que eu saiba os Portugueses ainda só foram à Lua, não a outros planetas. Foi na altura daquele Presidente o Donald Reagge!
No dia seguinte o meu amigo ligou-nos da cidade a dizer que os Portugueses afinal tinham mesmo ido a outros planetas e que o stock que lá deixaram foi pequeno, ora como ninguém se lembrou de ensinar os alienados a fabricar o seu próprio produto ele acabou por acabar, o produto isto é.
Disse-me mais. A cidade acordou submersa por uma espécie de névoa sombria - era a sombra da nave dos alienados. Eles vieram cá buscar a receita.
Às vezes finjo que sei muito de História....desta vez deu barraca!

Abraços "incensíveis"

p.s. são 2 e meia da manhã e eu aqui, afinal o alienado sou eu!

sexta-feira, outubro 08, 2004

XIII.Não desliguem a música

A tarde estava amena, ao fundo notavam-se leves desenhos brancos decalcados numa imensidão de azul. A conjugação das cores era divina.O Sol convidava-me a semi-cerrar os olhos enquanto respirava fundo e aconchegava o braço esquerdo suavemente sobre a porta do carro soltando um esclarecedor suspiro. Os outros carros moviam-se graciosamente à minha frente, tudo muito calmo, muito relaxante. Outros cotovelos se ajustavam à posição mais cómoda, todos eles espreitando, porta fora, os brandos raios solares enquanto se refastelavam no conforto daquele calorzinho de fim-de-tarde.
Ahhhh!!-balbucio timidamente- que belo dia de existência!
Os movimentos dos outros veículos, outrora canibalescos, parecem-me agora um slow motion futebolístico na análise do fora-de-jogo. Cum raio, estou numa fila!
Para a mesma situação, o Homem tem diferentes comportamentos, a prova disso é que em vez de desesperar, praguejar e apitar; relaxei, sosseguei e balbuciei novo suspiro enquanto subi o volume do leitor de cds- mais uns minutinhos de sol, portanto.
Nenhuma fila se iria intrometer entre o meu belo dia de existência e a minha paciência letárgica.
10 segundos depois reabri os olhos como se os estivesse a abrir pela 1ª vez, mas sem chapada no rabo. Tinham sido devorados cerca de 2 metros de alcatrão, visivelmente incomodado, o condutor que me antecedia, e que certamente não partilhava da minha letargia, fez soar o alarme. Com tamanho tumulto faria acordar um morto - pensei.
Foi então que avistei o Carro! Tratava-se de um Carro especial. É talvez o único carro que nos faz assobiar sempre que passa, mesmo sem ter mulheres/homens nús lá dentro. Ora assobiamos para o ar, flectindo a cabeça para um flanco e desviando o olhar, ora assobiamos para o chão enquanto verificamos, de sobrolho franzido, a precisão do corte da unha do dedo anelar. Por muitos autocarros cheios que passem, por poucos que sejam os minutos para o último exame do curso, por violentos que sejam os furacões do quarteirão vizinho, este é o Autocarro que ninguém quer apanhar, o táxi que todos consideram ocupado. Não, não é nem a ambulância nem o jipe da GNR, é mesmo o Carro Funerário.
O alarme soou novamente. Desta vez mais persistente, mais ameaçador! Está bem morto aquele corpo -concluí- caso contrário tinha certamente saído do caixão para pregar duas valentes bofetadas neste Orangotango de fato e gravata.
Baixei o volume da música e avancei os 2 metros desbravados.
Subitamente encontrei-me a parcos metros do Carro. Desliguei a música, fiz um ar pesado, fechei os vidros e contornei a mórbida excursão. Cerca de 40 pessoas caminhavam contando os grãos de alcatrão estendidos pela estrada. 10% choravam, 20 % murmuravam algo com as mãos acopladas ao antebraço do ouvinte, 20 % abanavam a cabeça ora em sinal positivo, ora em sinal de negação e os restantes 50% simplesmente contabilizavam sempre olhando para os grãos de alcatrão.
10 metros à frente liguei a música e pensei: " Porque desliguei eu a música?!"
E porque raio desligamos a música ao passar por 1 funeral? Temos medo que o morto acorde?Respeito? Por quem? Pelo defunto ou pela comitiva fúnebre? E se o defunto gostar de música? Eu acho que se a vítima não morreu da devida causa morre de tédio ou de tristeza. Devem ter mais medo do silêncio do que da morte em si! Mas antes o silêncio que a berradeira pegada. Se pudessem, muitos ressuscitariam só para mandar calar aquelas velhotas que antigamente ( e talvez ainda hoje ) eram chamadas só para chorar o morto. Não me lembro agora o nome que lhe davam, talvez choradeiras, mas eram verdadeiras profissionais, qui-ça sindicalizadas. Trabalhavam por turnos e revezavam-se várias vezes ao dia, sempre chorando a um nível aceitável de veracidade.
O que não é aceitável é a norma fúnebre. É demasiado triste. Demasiado vazia e desprovida de consolação, de optimismo. Nem a religião com a solução do after-life consegue suprir estes sentimentos depressivos e agonizantes. Acho que os funerais modernos não foram assim standartizados em prol do morto mas sim tendo em conta os vivos, a família, os amigos, a sociedade. Acho que foram instituídos com 1 objectivo dissimulado de chocar, de abafar, de sufocar mesmo o optimismo social - de amedrontar.
No fundo, o próprio termo é elucidativo - funeral significa " condução aparatosa de um cadáver que vai a enterrar".
Os egípcios, por exemplo, faziam uma espécie de festa debutante aos faraós. Preparavam-os para a iniciação da imortalidade.
A morte era vista como a ponte para o outro mundo, não como o fim do 1º.
Bem, nem tudo é fácil quando nos toca a nós. Quando o Seleccionador Supremo se lembra de convocar algum dos nossos para o jogo da Final, todos esperamos que a partida seja adiada por mau tempo ou que pelo menos ganhemos nos penáltis. Não há convocação tão mal-vinda como esta. É o mesmo que ganhar 2 bilhetes com tudo incluído para um Hotel de 5 estrelas no Iraque.
Seja como for, não gostei de ter desligado a música, achei falta de respeito para com o defunto.
Um dia, daqui a 300 anos, quando for convocado, gostava que não desligassem a música.
Gostava que em vez de contarem grãos de alcatrão, contassem episódios felizes que passaram comigo.
Gostava que fizessem uma condução aparatosa mas optimista da minha festa debutante.
E por favor, se algum equídeo engravatado decidir dar o alarme enquanto aguarda que percorra calmamente os últimos metros dos meus belos dias de existência numa tarde solarenta, espetem-lhe as 2 bofetadas por mim.

Abraços optimistas

p.s. Se alguém tiver mesmo 2 bilhetes p o Iraque com tudo incluído e não quiser ir, pf avisem. Obg.

quarta-feira, outubro 06, 2004

XII.Terramotos e Furacões

Mais uma bomba no Iraque!
Bem, na realidade, desta vez o termo é metafórico, mas se calhar não ando muito longe da verdade...
A cúpula desportiva Iraquina anunciou recentemente a intenção de apresentar uma candidatura para o Campeonato do Mundo de Futebol em 2014.
Uauu!!!
Pelos vistos, o príncipe da Jordânia, Feisal al-Hussein, anunciou também a intenção do seu país se fundir com os Iraquianos na organização do evento.
1 dos argumentos utilizados é que nessa altura a região seja, eventualmente bafejada pelos bons ventos da paz - como se dizia da Palestina e de Israel há + de meio século atrás - e que um evento multitudinário desta dimensão serviria como um motor de união das gentes quer fossem do norte, do sul, sunitas, chiitas, curdos, surdos, chaguitas, ceguitas ou suínos.

Pretende-se então organizar um Campeonato do Mundo de Futebol num país parcialmente destruído.
Bom, não seria a 1ª vez...

Chile, 21 de Maio de 1960. A terra iniciou os movimentos graciosos de uma dança pélvica com uma cadência cada vez mais excitada. Há medida que a excitação aumenta, aumenta também a extensão dos movimentos "parkinsonianos" do aparelho mais temido do Homem a seguir aos vibradores eléctricos - o sismógrafo.
Na altura do Orgasmo o Sismógrafo registou a incrível magnitude de 9.5Mw - que configurou o maior terramoto de que há memória.
Ainda assim, com 5 mil mortos e 2 milhões de desalojados, o Chile não permitiu à FIFA que transferissem o C.M. para outro país tendo inclusive ficado em 3º lugar no mesmo.

Mas as semelhanças com o Iraque e o clima terrorista e de guerrilha são notórias : No dia da semifinal contra o Chile, os jogadores brasileiros almoçaram apenas sandes. Como o jogo era contra a equipa da casa, os dirigentes canarinhos estavam com medo de que algo pudesse ser colocado na comida do hotel para cortar o piu aos passarinhos.
Bem, seja como for, não será a 1ª vez que um País é tragica, impiedosa, inutil e impotentemente destruído por forças da Natureza alheias à vontade de quem assiste e depois tem capacidade para organizar 1 Campeonato do Mundo e ficar bem classificado - aliás vejam o exemplo dos Jogos Olímpicos nos quais o Iraque atingiu as meias-finais, para nossa grande tristeza.

Tudo certo portanto.
Só uma sugestãozita: e que tal começar por organizar o País?
Não sei, talvez esteja a ser antiquado...
Seja como for, suspeito desde já, de uma nova onda de rusgas e de polémicas em torno do armamento Iraquiano.
Está visto que as armas de destruição massiva vão encher as manchetes dos jornais novamente. Quando aquelas Musas Suecas, Dinamarquesas, Finlandesas, etc, etc começarem a descer do avião de peito feito e bem arejado, o próprio Bush encontrará facilmente dezenas, centenas até de armas pesadas, maciças armas de destruição massiva! Julgo inclusive que o próprio revelará um pistoletezito nuclear.


Abraços ma(n)ssivos

p.s. Falando mais a sério, por um lado gostava que o Mundial fosse lá realizado:
Em 1º lugar porque nunca foi realizado no Médio-Oriente;
em 2º lugar porque poderia mesmo motivar a união entre os povos;
em 3º lugar pelos mesmos motivos que levaram a Fifa a aprovar o Chile após o terramoto, ainda que pressionada por outros países que tinham tudo prontinho - os Chilenos usaram isso mesmo para garantir a realização do evento. " Eles têm tudo pronto, nós não temos nada!"

domingo, outubro 03, 2004

XI.Tácticas comedeiras

O panorama político nacional continua a mostrar uma tremenda mobilidade na busca da táctica de jogo mais adequada face a este clássico eleitoral.

Aos 15 min, Manuel Alegre ( candidato derrotado à liderança do PS) dá conta de uma nítida vontade, por parte de Jaime Gama (dirigente socialista) , de flectir perigosamente para a direita. Aos 30 min, Alegre desvaloriza o meio-campo ( centro) e sugere então um reforço nas alas. Na ala direita retira o extremo e manda entrar outro lateral que servirá de tampão para as incursões inimigas; na ala esquerda substitui o lateral e passa a atacar com 2 extremos de raíz para ganhar maior obliquidade ofensiva. Espera assim favorecer o ataque pela esquerda derrotando pois a direita contrária.

Intervalo.

Aos 55 min, Jaime Gama responde às alteraçoes tácticas de Alegre e grita para dentro do campo sugerindo que o melhor ataque deverá ser feito pelo lado direito, ainda que assim esteja claramente a atacar a esquerda. Opta em seguida por retomar a solidez no meio-campo ao chamar o nº 10 para se ocupar das posições ao centro. Aos 80 minutos ao ver um Homem da esquerda no chão diz que só haverão entendimentos à Esquerda se o interesse colectivo ( Nacional) o exigir, o que é muito diferente de levar o lesionado ( PCP/BE) ao colo para o Balneário ( Governo).

Fim do jogo : 0-0


Bom, a mim parece-me que nenhuma das tácticas será bem sucedida. Voltamos ao estigma de querer ganhar jogos sem pontas-de-lanças!

Abraços atacantes

p.s. "Primeiro foi a bipolarização PS/PSD.Agora a convergência PS=PSD.
O povo escolhe o que quiser: batatas com bacalhau ou bacalhau com batatas."
Mas o azeite, ahhhh o azeite, esse ninguém o partilha.

X.Biografias Pedidas

Desde os meus 13 anos que desenvolvI o gosto pela leitura e pela escrita. Aos 17 comecei a escrever o meu 1º e único livro, que considerei inacabado aos 22.
Ao decidir criar 1 blog tinha 3 grandes objectivos: 1º voltar à escita; 2º anotar as ideias absurdas que nos vão passando pela cabeça ao longo do dia e 3º falar de coisas sérias de forma leve, com alguma ironia e humor.
Uma das ideias iniciais tinha sido inclusive o de fazer aqui um compêndio biográfico de algumas personalidades, fossem elas dos nossos dias ou de outras épocas. Era 1 boa forma de eu aprender algo útil enquanto escrevia e de correr o risco de alguém ler, gostar e aprender também.
Pois bem, ainda não fiz aqui nenhuma análise biográfica. Mas vou fazê-la brevemente.Por isso, pedia-vos que me dissessem se existe alguém de quem não conheçam muito bem a vida/obra e que gostassem de conhecer. Deixem a sugestão no comentário.
Para já tive 3 pedidos: Sarte, Átila e Lutero.


abraços inquisitórios


ps. Para esta 1ª análise só tenho 1 pedido mórbido a fazer. Não sugiram pessoas vivas...só defuntos mesmo!


sábado, outubro 02, 2004

IX.Ahhh, a agonia da escolha

No rescaldo do 1º debate televisivo entre Bush e Kerry, Os analistas Americanos concordam que Jonh Kerry terá relançado a sua campanha rumo à presidência do País mais Poderoso do Mundo.
Todavia, advertem para o risco de conclusões apressadas.
"Quem quer que escolha um vencedor neste debate, pertence a um partido, porque tradicionalmente o público precisa de 48 horas para digerir a informação que lhe é fornecida. Segunda-feira, nas conversas no emprego ou nas cafetarias, com o debate revisto na informação de domingo, as ideias serão outras."

Ou seja, pelo que percebo, os Americanos precisam de 2 dias p poderem assimilar informações.
No 1º dia ao almoço comentam que houve 1 debate enquanto o micro-ondas aquece a lasagnha. Ao final da tarde, no jogo de bowling, concordam que o debate foi entre candidatos à presidência do País. À noite, na visita ao supermercado mais perto, criticam que a gravata de um dos candidatos era demasiado garrida, enquanto compram 4 caixas de munições para as 3 espingardas e os 4 revólveres lá de casa ( nunca se sabe quando pode aparecer um terrorista, ou comunista, ou vigarista ou pior, um Negro).
Domingo de manha ( 2º dia) - iniciam a consolidação opinativa na Igreja, dependendo, pois claro, do Padre.
À tarde, convidam o melhor amigo para assistir ao jogo de Baseball e enquanto engolem 3 litros de cerveja concluem que a Guerra do Vietnam foi de longe bem mais cativante e que tinham muitas mais informações sobre ela, devido aos filmes, do que desta do Iraque.
Esboçam leves especulações sobre possíveis realizadores capazes de fazer um belo filme à antiga sobre a guerra do Iraque, uma espécie de Apocalipse Now dos tempos modernos.
Depois, já meio embriagados tecem comentários humorísticos sobre qual dos candidatos parece em melhor forma física e qual dos 2 tem o cabelo mais bem penteado.
Pelas 19:00 atingem a maturação opinativa.
Contudo, tudo foi em vão. Às 20:00 assistem ao serviço noticioso de Domingo, esquecem tudo o que sabem acerca de política, valores, ética, democracia,equidade e humanismo e vão buscar as toalhas para o pós lavagem-cerebral.
Alguns hesitam na estação televisiva, tudo depende deste momento, qual delas escolher?
Afinal todo o seu conhecimento dependerá da parcialidade política da estação e da sorte de estar num dia em que não usem muitas palavras esquisitas.
Tudo se resume pois ao Poder da escolha! A escolha do canal.
É nesta altura que o telecomando, simples intermediário entre a vontade do nosso cérebro e a absorção midiológica se torna o mais poderoso dos equipamentos electrónicos.
Ahhh a agonia da escolha!!
O relógio parece hipnotizar com a sua velocidade febril, faltam breves segundos, parcas contracções respiratórias; os ponteiros não param, não abrandam, não serenam, antes parecem voar, deslizam como crianças no aquaparque de Amarante, desaparecem como manteiga em focinho de cão, esgotam os últimos tics disponíveis, aproximam-se do tac final.
Ahhh, a agonia da Escolha!!!
Amanhã não haverão mais desculpas, tenho que ter uma opinião. Mas que opinião?? Porque é que eu não posso simplesmente não opinar? Afinal nem é nada comigo!! Estou aqui no meu cantinho enquanto assassinamos centenas de inocentes por dia, vou à missa ao Domingo de manhã, dou esmola aos pobrezinhos- brancos- sempre que não consigo fingir que não reparei, ajudo os meus amigos mais chegados a cortar a relva...Não tenho nada a ver com esta Guerra!
Nem sequer votei no Bush, aliás, nem conheço ninguém que tivesse votado...realmente! Como terá o safado vencido as eleições?
Bem, é melhor então ver as notícias...mas em que canal?
Amanhã é o grande dia. É o dia da pseudo-opinião crítica. Amanhã tenho de estar pronto para as "conversas no emprego ou nas cafetarias", sim, fingirei ser inteligente, sensível , crítico e senhor das minhas convicções. Ninguém vai reparar. Ninguém é inteligente o suficiente para o fazer. Ufa!!
Vivo num País Democrático! Fomos nós que inspiramos a Revolução Francesa! Fomos nós que ajudamos o Mundo a soltar-se das garras da tirania Fascista! Foi 1 de nós que se revoltou para com o Racismo e nos ensinou a respeitar as pessoas de cor ( desde que sejam ícones de desporto ou música )!
Não vou ser eu que vou sujar este caminho democrático tão duramente calcetado ao longo de décadas. Vou usufruir de todo o potencial porque lutaram todos esses bravos Homens. Sim!! Escolherei, não me amedrontarei face a tão agonizante momento! Saberei manifestar o meu agradecimento, saberei usar os meus direitos.
Escolho o canal ......37 !
Ahhh....o reconforto do sentimento da escolha democrática! Isto sim é um País. Ninguém nunca escolherá por mim, nunca!

abraços iguais, libertadores e fraternizantes

ps. O ignorante é o mais feliz de todos os Homens - não sabe.

quarta-feira, setembro 29, 2004

VIII.Progresso-Retrocesso

Ai que dor!
A partir de agora por cada post novo que eu publique, desaparece 1 dos antigos. O blog só aguenta 7 de cada vez...algo que vos deve preocupar a todos!
Se quiserem visualisar os posts mais antigos terão de clicar no link ao vosso lado direito com o nº e título respectivos.
Continuando...
Em conversa circunstancial com 2 conhecidos fiquei ontem com a nítida sensação que a Cultura é uma ave rara em vias de extinção.
Já dizia o outro, quanto maior a subida, maior é o tombo - e que tombo cultural este a que assistimos.
Segundo Darwin, o Homem é fruto da evolução – somos portanto uma raça efémera, mutacionista e demasiado dependente do Tempo.
Tudo o que conhecemos foi criado em 7 dias e nem 1 dia se perdeu em busca do progresso contínuo. O 8º dia do Mundo tem sido um dia eterno, 1 dia de evolução, de desenvolvimento, um dia de experimentação e contentamento, bla bla bla.
Mas será?
Quanto a mim estamos a evoluir para trás ainda que Existindo para a frente.
Imaginem Sócrates, após contemplar o estado cultural deste mundo moderno, a correr de um lado para o outro tal e qual 1 barata envenenada com skip aloe vera, de braços no ar a gesticular muito depressa e a gritar - "Onde está a cicuta? Onde está a cicuta? "
Há, contudo, uma solução: Acabem com a electricidade!

Abraços estagnados

p.s. O animal vive, o Homem é, existe!
Somos por isso existentes, desistentes ou repetentes nesta sala de aula que é a vida, mas Somos!!!....coitado do emplastro!
Benfiquistas tranquem os sorrisos - o estigma de evoluir para trás ainda que Existindo para a frente deve fazer-vos comichão...

terça-feira, setembro 28, 2004

VII.Ensaios sobre a agnosia

No Sábado passado apercebi-me, mais uma vez, da manipulação que a comunicação social exerce sobre o Povo Português ( os outros não sei, mas suponho...).
Nos últimos dias os telejornais têm aberto a edição com o caso insólito e macabro da menina assassinada, cujo corpo permanece desaparecido.É um caso emocionante, triste e até revoltante, concordo, deve ser divulgado e servir de mau exemplo, mas será suficiente para preencher um espaço noticioso que se pretende genericamente informativo?

- " É assustador" - disse a minha mãe;

- " Mãe - respondi - assustador é a forma como a comunicação social nos manipula, só mostram o que querem que nós vejamos; do Iraque e do genocídio que lá se está a cometer ninguém se pronuncia; da casa da música que deveria estar pronta há 3 anos ninguém faz "especiais noticiosos"; dos deslizes orçamentais só vislumbramos os escorregões e da ausência de responsabilização jurídica e criminal relativamente aos quadros de Administração Pública nem vemos os tostões nem encontramos os ladrões" - o que se seguiu depois foi uma infrutífera discussão acerca das minhas prioridades.

Eu compreendo que estes casos mexam com as pessoas, mexem comigo também, o que eu não compreendo é a cegueira dogmática que aprisiona o pensamento imparcial de muitos de nós.
Nem mesmo Saramago poderia escrever sobre esta miopia prospectiva.
As pessoas vivem numa cortina de nevoeiro onde só vislumbram 1 palminho de caminho, e é esse o caminho que tomam porque não conseguem ver mais nenhum.
Soltem as palas, liguem os faróis, arranquem a venda, mas mudem de direcção ou ainda vão ribanceira abaixo!

Abraços iluminados

p.s. Partilho aqui convosco um email que recebi hoje :

1. A Casa da Música era a obra emblemática do Porto 2001, Capital da Cultura.
2. A Casa da Música devia ter sido inaugurada em 2001.
3. Em 2004 a Casa da Música ainda não está concluída.
4. Anunciou-se que a Casa da Música será inaugurada em 2005.
5. A Compta foi a empresa que desenvolveu a aplicação informática para colocação de professores.
6. A aplicação devia ter sido concluída em Junho de 2004.
7. Em fins de Setembro de 2004 a aplicação ainda não funciona.
8. Couto dos Santos é administrador da Compta.
9. Couto dos Santos vai ser administrador da Casa da Música.
10. Previsão: a Casa da Música vai inteiramente ser executada à mão.

sábado, setembro 25, 2004

VI.O desígnio dos tolos

Sim...já sei, já não escrevo há 1 eternidade! Garanto-vos contudo que não fiz nenhum pacto com o Ministério de Educação.
Os motivos que levaram à minha ausência foram outros.
Esta semana tive várias experiências pessoais que se revelaram surpreendentes. Decidi, por isso, não escrever, tamanha a azia.
Com a minha idade já sei que o travesseiro é um bom conselheiro, mas mesmo este fiel amigo insistiu noite após noite em se a...travessar na já ténue fronteira do meu bom-senso. As noites transformaram-se pois em longas travessias com travo a desilusão. As pessoas são seres travessos, gostam de ultrapassar, extravasar mesmo, os limites da sua própria opinião. Há verdadeiros extíspices entre nós, crueis abutres que se alimentam dos restos das nossas desalegrias, autênticos táxis em dias de mau tempo.
Bom... estão a ver porque é que me escusei a escrever?
Schopenhauer dizia que os Amigos dizem-se sinceros: os inimigos são-no.
Bons velhos tempos!!! Hoje em dia já nem nos inimigos podemos confiar.

O meu grito de Ipiranga é por isso:

A todos os nefrídios que têm a mania que conhecem a vida dos outros, que se julgam seres superiores porque têm noivo/noiva/namorado/namorada/bmw/mercedes/moradia no algarve/o nº da Marisa Cruz ( exceptuando o Rui ), etc; a todos os que têm a ousadia de deduzir, aos que têm o arrojo de presumir e aos que pensam que podem intervir - dediquem-se às rolhas de cortiça, ou deixem que as rolhas de cortiça se dediquem a vocês!

Abraços bífidos

p.s. Quando me apercebi quase era tarde, já estava de costas... mas naquele dia sentia-me ágil e não frágil!

domingo, setembro 19, 2004

V.Kamikases sexuais

Tive agora mesmo uma pequena conversa com uma amiga acerca do meu blog. Estava a tentar explicar o conteúdo deste meu/vosso espacito virtual- a espontaneidade, o cariz humorístico e o devaneio mental aqui expresso - quando sou inesperadamente arremessado contra um muro de betão com pequenos espetos de ferros caprichosamente armados na dura parede ( betão armado, portanto).
Pergunta-me ela: "...já agora, fala de sexo??).

Pois é....isto dum gajo se armar em civilizado e bem-comportado já não traz recompensa no final!
lembram-se do famoso pote no fim do arco-íris? Acho que o dono do pote foi obrigado a pagar as mais-valias por cada ano que passava sem q ninguém o encontrasse...e que eu saiba, nunca ninguém encontrou nenhum. Conclusão: É tudo tanga meus amigos!!!!!

Adiante, resolvi não escrever aqui sobre sexo pois claro.
Apertem os fechos pilantras!

Disse-lhe então eu: "...não , não fala de sexo, sobre isso falamos pessoalmente!! ".
Foi uma boa resposta, admito, mas na realidade ainda sinto os picos daquela malfadada parede de betão....

Bem resta-me contentar com o post dos romanos e da sua mentalidade preversa e dissumulada. Uahhh!!!! que soneira.... Pois é, falei aqui de sexo no 1º post que publiquei, e ainda assim "hoje soube-me a pouco".

Lembram-se dos Kamikase? Aqueles aviõezitos japoneses que iam contra tudo e todos num acto que tinha tanto de heróico como de estúpido? Porque carga de água é que os pilotos teimavam em usar o capacete?????
Gente complicada esta....................................é como as míudas!

Abraços orgásmicos

p.s. MJ, se amanha acordar encharcado acabaram-se as massagens!
Vou ver um bocado de tv com um comando com pilhas gastas. Adoro imprimir mais vigor nos botões mesmo sabendo que enquanto não levantar o rabinho vou ter que ingerir mais um anúncio do televendas.